terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Berg , uma história baseada em fatos reais


Parceiro meu não tinha se ligado que essa bodega tem um caráter estritamente comercial.
Rsrsrs.
Brincadeiras à parte... Segue Berg: uma homenagem a todos os "Peixotos" do Brasil... Em especial a Mário Buonocore


Berg, história baseada em fatos reais
 Para os Peixotos do meu Brasil


Tinha fama de cordial e educado, bom filho e funcionário padrão. Tudo levava a crer que desempenhava com zelo alguma nobre função na empresa a quem chamava, simplesmente, Vale. Alguns poucos sabiam de sua vida pessoal, preferia assim. Entretanto, não dispensava a pelada aos domingos e o chopinho esperto no campinho do bairro.
Diziam ter um futebol moleque e alegre. Tão pouco relaxava o famoso prato de mocotó servido por sua vizinha no bar da esquina, grata expectativa de socializar e mais uma vez se gabar do trabalho. Presença cativa na roda da malandragem amiga, exemplo de cara que venceu na vida, apontado pelas senhorinhas gordas como um modelo de bom menino. Apesar do jeito gabola, era popular e bem quisto. Era o bom moço, talvez gerente na companhia. Sempre impecável no ponto de passagem da linha 23. Pontual e correto a ir e vir pelas ruas do bairro.
De vez em quando, contava aos conhecidos de suas viagens à serviço pelo país, os problemas que tivera que resolver (sozinho), a rotina estressante de cursos, os treinamentos corporativos que ministrou, o naufrágio que evitou ao detectar um erro grotesco nos cálculos matemáticos de um analista iniciante. Tudo relatado de um modo particular. Conciso nos gestos e palavras. Uma lenda na empresa, sujeito indispensável e endeusado por grande quantidade de puxa-sacos, pessoas que dizia serem necessárias e mal cheirosas. Parte que não gostava de frisar, para não fazer propaganda de si mesmo.
Lia muito. Sabia bastante. Para tudo tinha uma explicação que passaria incólume para grande maioria de seus ouvintes (não eram poucos). Um caso raro de indivíduo que se adequava a qualquer perfil empreendedor e congênere.
Para os mais íntimos respondia pela alcunha de Berg. Para os demais era Lindiberg. Drº Lindiberg Madeira.
Costumava chegar cedo. Em um dos botequins próximos de casa, visava a mulherada que exalava essências e pouco suor próprio. Adoravam flertar as figuras com aquelas pulseiras de prata e letrinhas douradas (modinha cafona), cuidadosamente exibidas no pulso direito. Pilantrada gostosa que nunca lhe haviam mirado com a farda da empresa.
Aquele olhar cúmplice. Ela intencionalmente romanceou, dizia ter a impressão de o conhecer de outra vida, talvez de uma outra estação. Aquele sugestivo olhar de fazê-la pensar atrevida em seus mais impublicáveis segredos. Seu jeito animalesco de comer, como se macerasse sua vulva com os dentes. Sua farda, preponderante subterfúgio para ofuscar sua inata falta de classe. Disfarçada. Corrigida com ensaios exaustivos em frente ao espelho.
Depois de alguns dias ela já ligava na empresa, atenciosa que era com as coisas suas. Berg atendia doce: Oi, amor! Tudo bem? Muita saudade de você, um minuto por favor, meu bem. Entre... Drº Lindiberg, preciso que o senhor assine estes papéis, eles só estão dependendo do seu aval. O que é? Trata-se da contratação de 300 homens para serviços de implantação do novo píer. Ganhando a quanto? Quatrocentos e cinqüenta reais. Meu caro! Eu já disse que eu não quero exploração aqui na empresa! Isso não faz parte de minha filosofia de trabalho! Contrate 600 homens, ganhando setecentos reais. Algum gerente, doutor? Gerente aqui já basta eu!
E continuou: Ei, volta aqui! Quando eu estiver no telefone não me interrompa! Ouviu!!! Não me interrompa! Esta pessoa com que eu estava falando é de minha maior estima. Desculpa doutor... O telefone cuidadosamente posto em cima da mesa de modo a deixar a beldade impressionada com o conteúdo da conversa. Clara intenção livresca de definitivamente a ver fascinada com sua lida com os negócios.
Todos os dias iguais para Berg, seu ir e vir pelas ruas do bairro, seu sorriso alegre por gozar da admiração de todos. Mas havia algo no ar, os dias não pareciam ter a cumplicidade de antes.
Um ônibus lotado, muitos visitantes para conhecer a empresa. Berg em seu departamento trabalhando serenamente.
O sol das três. Um rolo de cordas. Cem quilos pra cada um. Berg e demais parceiros. Muita dificuldade e lerdeza na lida. - Vum bora peãozada! Rápido! Gritava o encarregado chefe. Berg sorria obediente.
O busão, leve a dobrar a esquina. A guia gostosa apresentando as dependências do novo píer. Os peões numa alegria contida, a brecharem sem vacilo cada janelinha do veículo. O grande susto. O tempo às vezes pára.
- Beeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeerrrggggggg!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Um clarão. Frações de segundos. O rolo despencando barranco abaixo. O pescoço acompanhando pateticamente o ônibus que se ia. Mais uma vez aquele olhar cúmplice. A peãozada debochada rindo sem sentido, como se pra rir tivesse que haver algum. Que foi isso bicho? Lembra da mina do telefone e que eu tô, tava, sei lá! Pegando? Era ela? Hum rum... O encarregado do outro lado. O que foi isso, bicho?... Que putaria foi essa, mermão??? Ruuuuaaaa! Ruuuuaaaa! Seu filho da puta!
Não se ouviu mais falar de Berg, em lugar algum.       

2 comentários:

  1. Estou com pressa para ir para o sagrado jazz de toda terça-feira,mas na volta,vestirei meu roupão azul turquesa,derramarei uma boa dose de black label "on the rocks",acenderei um havana,colocarei um vinil do Carlos Gardel e comentarei nesta bodega.Quem viver verá!

    Amplexos!

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  2. "Beeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeerg" hehehehehehehehehe
    Caracas,essa história é muito boa...dei boas risadas aqui.O Interessante é tentar contextualizar essa história com algumas pessoas que conhecemos no decorrer de nossa trajetória,né?O personagem "Berg" é um dos grandes representantes da "Escola Peixotiana Moderna"...exemplo do peixoto de nascença,como tem muitos por aí...não citarei nomes,mas posso dizer que conheço alguns muitos por aí...às vezes chegam a merecer até um soco bem dado na superfície craniana,mas em seu habitat natural conseguem ser figuras bem interessantes,quando alimentados de maneira correta.

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"Mais uma dose! É claro que eu tô afim!" Obrigado por visitar a bodega online. Abraços!