quarta-feira, 30 de abril de 2008

Teoria

O ano era 1999, no mínimo cabalístico,  rs.  Eu era um jovem secundarista. Fazia o 2º ano no Colégio Santa Teresa, em São Luís do Maranhão. Tempos áureos de muita escrita, livros e sede de menino novo. Tempos de muitos sonhos. Dentre eles, a possibilidade de militar na Medicina. Naquela época estudava que nem um condenado (não quanto deveria) e não sabia muito bem pra que. Nove em cada dez secundaristas não sabem o que querem pra suas vidas ou carreiras profissionais.
Esse poema me rendeu uma página no jornal (mídia espontânea, claro! Jabá... não sabia o que era) e uma das experiências mais excitantes de minha passagem. Explico o porquê.
Inscrivi Teoria no Festival de Poesia Falada da UFMA daquele ano. Hoje o festival se chama Poemará - Festival Maranhense de Poesia, mas continua a ser promovido pelo Departamento de Assuntos Culturais da Federal. De quebra me candidatei a interpretar o meu poema nas eliminatórias e na grande final a ser realizada no Teatro Artur Azevedo (TAA), maior palco da cidade.
Era um festival universitário. Eu e Mateus Gato, amigo de colégio e hoje sociólogo e pesquisador na USP, éramos os únicos secundaristas na ocasião. Classificamos-nos nas eliminatórias e partimos pra grande finalíssima no TAA.
Bateu aquele frio na espinha. As menininhas que brechávamos no recreio na primeira fila. Puta responsabilidade. Um burburinho só. Amigos, vais, luzes e aplausos. Acompanhávamos um a um os amigos que subiam ao palco. Num dos camarotes meus pais e minha irmã. Subi ao palco. Era eu, um solo de guitarra do Chiquinho França e a lotação completa do teatro. Tirei os óculos à John Lennon (que tirava os óculos nos primeiros shows pra conter a timidez) mandei ver.
Putz!...
Tenho um carinho especial por aquela noite, pelos amigos que fiz naquela ocasião, por esse poema. Com alegria resgato essas linhas...


Teoria


vida
sem
vida
no torrente
folhear
de livros.


nesse marasmo
sempre se indaga:
"como se vive
além das páginas?"
não por descaso
pouco se sabe.
há vida...
a vida não cabe.


sempre há tempo!
por chato que seja buscá-lo
e grato que seja encontrar.
a vida é colorida em
capa e contracapa.
raramente um livro aberto
de cores por dentro
e figuras graúdas.


pra se buscar uma meta
pouco se mede com réguas de véspera.
desafiado, o ego não cede
ao mundo sem regras
que sem réguas traça metas.
réguas não traçam retas.

na escala dos dias meio mundo gostaria de sua decisão,
repetidas vezes à fila
não.
um quê divino em
sua ficha de inscrição.
teoria dos dias e vida,

um indeciso vestibulando

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Um dia de praia em Brasília

Na última segunda, 21 de abril, mais de 1 milhão de pessoas lotaram a Esplanada dos Ministérios para festejar os 48 anos de Brasília. Desde que cheguei aqui, nunca tinha visto tamanha manifestação popular. A seguir registros da cidade em estado de pura poesia.



Publicada no site do Estadão - 26/04/2008
legenda

sábado, 19 de abril de 2008

Telepatia


I wish you were here...


Telepatia

como tenho saudades daquilo que tenho!
mesmo que não tivesse, 
teria
e só tenho lembranças...
do olhar cúmplice, 
do beijo apaixonado,
da preocupação desinteressada, 
pelúcias de sorriso orelha a orelha, por exemplo.

tenho saudades do sol a bater no meu rosto
e os olhos fechados, descompromissadamente,
ao tentar vê-lo face a face com mira de menino.
sentado num banco à beira da praia as ondas a ir e vir
a baterem tímidas nos meus pés descalços,
fizeram-me crer que ali era o ponto de chegada
ou de fuga assistida?

há algo infinito, algo que não sei nomear.
uma certeza improvável de ser feliz onde
se esconde sincera paz de abraços íntimos.
mergulho profundo talvez, na próxima onda que virá.

BSB, abril 2008

terça-feira, 15 de abril de 2008

Pequena


Pequena
se falassem amor pouco saberias.
dirias ter amado, ser amado não existe.
desista!
se não agrada a idéia burra de que hoje é diferente e
que o sorriso da véspera é sempre meu, sempre pra mim.
culpa!
pecado de nivelar o nada, 
desculpa pra pecar nivelando por baixo.
se te servisse torradas
ou qualquer satisfação sacana
não cobraria taxas, licença
ou permissão.
dez por cento entrou em desuso,
e mesmo o amor, não corresponde
ao valor das trocas comerciais.
invadindo sem bater
pulando as janelas da casa pequena,
como os ventos da total entrega irei chegar.
tentativas de do mesmo modo atingir corações.
se ouvires minha voz
e o flamejar do mapa direi
que a vida seria mais alegria.
um "também sei"...
inesquecível e fugaz
saltaria dos teus olhos.
amanhã, hoje desavisado.
Slz, 2003

Hoje não são outros dias


Hoje não são outros dias

então paraste de sonhar
mas mesmo assim ainda fecha os olhos.
então estancaste o olhar
contemplando sempre as belezas de outrora.
(as mesmas belezas de outrora)
então tereis amado
e agora nada importa, tudo à porta
esses bagulhos da alma.
então gritaste alto
em seu palco de microfonias.
então fitaste nas calçadas
riscos de monotonia
então riscaste as calçadas em demasia

sexta-feira, 11 de abril de 2008

Bairro



Bairro é um grito. Uma apressada narrativa. Um pequeno relato de minhas muitas andanças pelas periferias de São Luís do Maranhão. Poema atestado. Poema de desesperança escrito em 1999, mas que se aplica aos dias de hoje em qualquer grande cidade brasileira. Aos que se julgam capazes de construir alguma coisa por seu semelhante resgato direto das pastas mofadas de ontem: bairro. Aos que preferem amenidades, por hoje, não! 

Bairro

lugar infeliz 
desprovido do sumo.
sorrisos ímpios 
serafins com fome.

carteado nas vias.
galinhas ciscam o esgoto.
o anjo chora faminto 
por um pedaço de frango.

a paisagem corrói as narinas
toca o insensível!
subtrai a dignidade
ignora a condição humana

rostos extasiados ao marasmo típico
nádegas sentadas sem serviços
os mesmos clientes fantasmas
em ramos apáticos e falidos.

periferia esquecida
discreta esperança
animais de todos os tipos
noturna constatação

habitat peculiar
que às vezes determina
a inexistência de ideais
transcendentes a sina

abutres ratos e moscas
coadjuvantes da história
onde o principal personagem
é o bicho homem que 

late
reza e
chora.

maleável miséria existente
convive nos lares felizes
"o destino há de prevalecer...
já tenho o que preciso ".

SLZ, 1999

quinta-feira, 10 de abril de 2008

Para que C. Prestes Unes retorne a vida


Deus é hipertexto.
Michel Malamed

Sabe amor... Eu precisei de um tempo pra perceber que os papéis me fazem falta. Não tanto quanto você, motivo maior desta carta. Quando cito os papéis, não me refiro a meu script gozado nessa possível, edificante, pífia passagem pelo mundo. Definitivamente, não me valerei da saudade dos papéis, para falar na suada matemática de simbologias. Irresistível busca para a escolha da melhor palavra num poema. Fonema perfeito como o teu sorriso.

Mesmo o tempo, em frente ao monitor conectado do computador e suas muitas novidades, que me sugerem como um alvo. Ou as mais bobinhas boas novas da Internet, de maneira alguma, contemplam a mística dos chamados românticos e ultrapassados amantes das velhas tecnologias. Em última instância, desavisados digitais, que o são, por pura falta de sorte, oportunidade ou resistência ao aprendizado.

Enxergam na antiga Hemington, uma fiel escudeira. No punho de caligrafia apanhada, enigmática ou hilária a única salvação. Quando me refiro aos papéis, ou melhor, às folhas de papel, não falo das que estão piscando na impressora arreganhada, doidas para serem sangradas, ou à seda que repousa no boteco próximo esperando uma mão boba pra ser fumada, quem sabe.

Não, não se trata de uma apologia ao papel. Que dirá ao de pão. Ou o de jornal e suas constantes estruturas narrativas óbvias. Embalagem de peixes e outras coisas mais. Portanto, pouparei o papel higiênico. Sinto falta da folha crua pronta pra ser descabaçada, no entanto, ressuscita CPU, com puta dor e teu sorriso verde ao "inicializar".

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Vértice


Vértice podia se chamar: goteira na cabana próxima. Reminiscências sobre o Teorema de Pitágoras... Rs! Detalhe para a visão privilegiada dos telhados de São Luís/MA. Saudade com gosto de maresia


Vértice

há uma fresta no telhado
por onde passa excitado
um raio de luz...

pousado ali,
no bico do sapato.
pele da flor do sol.

não sei se parto
indiferente ao espetáculo,
categoricamente a que faz jus
as mãos do mistério do mundo.

um telhado
um sapato
uma nuvem

adiante descubro gotas e eis que encontro Pitágoras.

Slz, 2003

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Segrais carta ao rei português



Escrevi esses versos-crônica em 99. Influenciado pelo melhor poema piada de Murilo Mendes (embora renegue os tempos em que enveredou por esse caminho, se não leram, leiam História do Brasil) e
pelas comemorações dos 500 anos do "descobrimento" do Brasil. Apesar de na época, ver aquelas festividades sem a menor graça, (afinal de contas não tínhamos muito o que comemorar) entrei na onda. Embarquei no frenesi em torno do aniversário da terrinha. A propósito do ôba ôba da mídia, em torno dos 200 anos da chegada da família real no País, e da proximidade de mais um aniversário da pátria amada idolatrada... Resgato os papéis de ontem. Abraços!


Segrais carta ao rei português

"A rede ainda não tenho,
pobre impressora falha...
Redijo a próprio punho,
envio-te um fax tropical ".
(Pedro, Vás! Caminha...)

Pensamos ser a Casa da Mãe Joana.
Disfarçamos chegar à Índia.
Seduzem as suas vergonhas,
Queremos encontrar uma mina.
Olhares curiosos avistam a praia:
Índios e pajés
Dançando samba,
Comendo feijoada.
Preferimos não jogar aos tubarões
A escória lusitana.
Deixamos que seja alimento
Das índias suburbanas.
Ao longe se vê um morro desabitado.
Logo sugerem um nome dominical.
O capitão interroga:
— Onde estão os favelados?
Confesso meu rei,
Vim mesmo foi para o Carnaval!
Mulher bonita bundas baratas,
Mas só vejo a arte da palavra
Gingando um tupi inconformado.
Capoeira Gregoriana.
É a máfia dos 3 estados.
Terra da fome
Safra sucesso.
Puxador de caravela roubando a nau.
1º Grito de independência.
Dissecaram o mártir.
— Diga ao povo que fico!!!
Enquanto gritam:
— Vá embora majestade!
Fui pra guerra mas voltei irado,
Matei Solano soou como piada.
Tiraram-me a patente de soldado,
Ainda prenderam a muamba trazida!
No símbolo da moral
Pobre crioulo desfalece:
— Desculpa, mas qual foi o meu erro?
— O desejo de ser o que não parece.
Veja! São os holandeses, os franceses.
É!!! São os bons amigos piratas!
Trouxeram tamancos e a bebida dos deuses.
Capitalismo emergente fundaram a
Equino-Antártica.
Jk, Pai dos Pobres na Praieira,
O inconformismo não distrai.
Neguei o voto por um par de botas.
Indicador e polegar também valem.
Distante a banquinha
O jogo da bicharada.
— Jogue na águia americana é garantido!
— Sou teimoso, jogo na onça pintada.
O tédio atormentava,
Providenciei uma TV com urgência.
Tinha um gordo falando,
Artistas Globais em cena.
Deixei esse papo de descobrimento
Invadi em busca de entretenimento.
Fui à Fonte Nova,
Brasil versus Resto do Mundo,
Coincidência: conhecia o País encantado o presidente.
Mas não controlou a emoção,
Queria ser popular.
Vestiu camisa, "calsão" e
Esqueceu as chuteiras.
Pediu as do artilheiro,
Em campo só fez besteira,
Abriu a zaga para os oportunistas
Pra lamento da tribo brasileira.
O manda chuva da Bahia,
Apaziguava a goleada.
— Não crucifiquem o presidente,
Isso é só maldade! Pão e circo é melhor
Que emprego de verdade.
Trilogia dos Fernandos.
Mas quem será o próximo?
— Acalmem-se está tudo bem,
Tragam Beira-mar em Pessoa logo.
Já que somos caipiras
Resolvi conhecer o interior.
Comprei um carro no Recôncavo,
Famoso no exterior.
Mas só tocava Jazz Sinatra Blue's.
Queria ouvir os tupiniquins:
Brown, Caetano, Caimy,
Gil, outros e Jobim.
Terra querida,
Terra de contrastes.
Existiam dois reis
Coexistindo em igualdade.
Um negro mineiro
Um pardo capixaba
Um craque da música
Um poeta do gramado.
País católico de pastores e ritos,
Tomei a benção a um jesuíta.
Dei adeus para a corte, amigos, Hipocrisia.
Deixe-me falar Manuel, permita:
Anos cinzentos
Anos dourados
O censor foi meu amigo
Liberando essas rimas.
Meu desejo é ficar!
Gosto mais das pessoas do que do mar
Não interessa se tem ouro
Pau-brasil algo mais...
Em relógios de TV inventamos as horas.
Para ver se ainda temos algum tempo de volta.
Somos as velhas cobaias novas do mundo,
Onde estamos?! Onde desatamos os nós?!
Há cheiro de esperança
Odor das massas
A revolução está armada
Canetas e papéis a mão
Ideais... Por ora, revelados.
Tens que ver!
Já tem café pra rapadura
Foram-se 500 anos,

E a história não muda.