sexta-feira, 4 de abril de 2008

Segrais carta ao rei português



Escrevi esses versos-crônica em 99. Influenciado pelo melhor poema piada de Murilo Mendes (embora renegue os tempos em que enveredou por esse caminho, se não leram, leiam História do Brasil) e
pelas comemorações dos 500 anos do "descobrimento" do Brasil. Apesar de na época, ver aquelas festividades sem a menor graça, (afinal de contas não tínhamos muito o que comemorar) entrei na onda. Embarquei no frenesi em torno do aniversário da terrinha. A propósito do ôba ôba da mídia, em torno dos 200 anos da chegada da família real no País, e da proximidade de mais um aniversário da pátria amada idolatrada... Resgato os papéis de ontem. Abraços!


Segrais carta ao rei português

"A rede ainda não tenho,
pobre impressora falha...
Redijo a próprio punho,
envio-te um fax tropical ".
(Pedro, Vás! Caminha...)

Pensamos ser a Casa da Mãe Joana.
Disfarçamos chegar à Índia.
Seduzem as suas vergonhas,
Queremos encontrar uma mina.
Olhares curiosos avistam a praia:
Índios e pajés
Dançando samba,
Comendo feijoada.
Preferimos não jogar aos tubarões
A escória lusitana.
Deixamos que seja alimento
Das índias suburbanas.
Ao longe se vê um morro desabitado.
Logo sugerem um nome dominical.
O capitão interroga:
— Onde estão os favelados?
Confesso meu rei,
Vim mesmo foi para o Carnaval!
Mulher bonita bundas baratas,
Mas só vejo a arte da palavra
Gingando um tupi inconformado.
Capoeira Gregoriana.
É a máfia dos 3 estados.
Terra da fome
Safra sucesso.
Puxador de caravela roubando a nau.
1º Grito de independência.
Dissecaram o mártir.
— Diga ao povo que fico!!!
Enquanto gritam:
— Vá embora majestade!
Fui pra guerra mas voltei irado,
Matei Solano soou como piada.
Tiraram-me a patente de soldado,
Ainda prenderam a muamba trazida!
No símbolo da moral
Pobre crioulo desfalece:
— Desculpa, mas qual foi o meu erro?
— O desejo de ser o que não parece.
Veja! São os holandeses, os franceses.
É!!! São os bons amigos piratas!
Trouxeram tamancos e a bebida dos deuses.
Capitalismo emergente fundaram a
Equino-Antártica.
Jk, Pai dos Pobres na Praieira,
O inconformismo não distrai.
Neguei o voto por um par de botas.
Indicador e polegar também valem.
Distante a banquinha
O jogo da bicharada.
— Jogue na águia americana é garantido!
— Sou teimoso, jogo na onça pintada.
O tédio atormentava,
Providenciei uma TV com urgência.
Tinha um gordo falando,
Artistas Globais em cena.
Deixei esse papo de descobrimento
Invadi em busca de entretenimento.
Fui à Fonte Nova,
Brasil versus Resto do Mundo,
Coincidência: conhecia o País encantado o presidente.
Mas não controlou a emoção,
Queria ser popular.
Vestiu camisa, "calsão" e
Esqueceu as chuteiras.
Pediu as do artilheiro,
Em campo só fez besteira,
Abriu a zaga para os oportunistas
Pra lamento da tribo brasileira.
O manda chuva da Bahia,
Apaziguava a goleada.
— Não crucifiquem o presidente,
Isso é só maldade! Pão e circo é melhor
Que emprego de verdade.
Trilogia dos Fernandos.
Mas quem será o próximo?
— Acalmem-se está tudo bem,
Tragam Beira-mar em Pessoa logo.
Já que somos caipiras
Resolvi conhecer o interior.
Comprei um carro no Recôncavo,
Famoso no exterior.
Mas só tocava Jazz Sinatra Blue's.
Queria ouvir os tupiniquins:
Brown, Caetano, Caimy,
Gil, outros e Jobim.
Terra querida,
Terra de contrastes.
Existiam dois reis
Coexistindo em igualdade.
Um negro mineiro
Um pardo capixaba
Um craque da música
Um poeta do gramado.
País católico de pastores e ritos,
Tomei a benção a um jesuíta.
Dei adeus para a corte, amigos, Hipocrisia.
Deixe-me falar Manuel, permita:
Anos cinzentos
Anos dourados
O censor foi meu amigo
Liberando essas rimas.
Meu desejo é ficar!
Gosto mais das pessoas do que do mar
Não interessa se tem ouro
Pau-brasil algo mais...
Em relógios de TV inventamos as horas.
Para ver se ainda temos algum tempo de volta.
Somos as velhas cobaias novas do mundo,
Onde estamos?! Onde desatamos os nós?!
Há cheiro de esperança
Odor das massas
A revolução está armada
Canetas e papéis a mão
Ideais... Por ora, revelados.
Tens que ver!
Já tem café pra rapadura
Foram-se 500 anos,

E a história não muda.

2 comentários:

  1. Não poderia deixar de comentar esse belíssimo poema. Sem dúvida é um dos meus preferidos.Adoro a idéia do passado e presente interligados, principalmente quando fala do carnaval, pão e circo, anos cinzentos, anos dourados.Gosto dessa capacidade que você tem de entender o mundo que o rodeia,poucas pessoas têm isso e você não pode deixar de aproveitar. Para o seu bem e para o nosso que constantemente visitamos a sua bodega.E faço minha as suas palavras, foram-se 500 anos e a história não muda. Beijão da sua amiga Milena

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  2. passando pra deixar um oi!!!

    Sanae

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"Mais uma dose! É claro que eu tô afim!" Obrigado por visitar a bodega online. Abraços!