"O passeio" de Chagall, destaque na exposição "Virada Russa"
Clássicos são para serem apreciados com prazer. A meticulosa arte de degustar cada sabor, cada gesto... E com uma boa companhia, hum... Sim, sem dúvida, nada igual. Nesse fim de semana fui saudado com 2 convites especiais. O primeiro para ver arte (confesso não ser o meu forte) o segundo para voltar ao teatro.
Fui ao CCBB ver a exposição "Virada Russa", a vanguarda na coleção do Museu Estatal Russo de São Petesburgo. Revelações sobre a transgressão entre o figuratismo e o abstracionismo. Por sua complexidade e sutilezas, quadros de dar nó em pingo d'água. Em destaque a obra "O passeio" de Chagal, único em sua temática e beleza.
Para desatar os nós fui ao teatro. Tratava-se de "Gota d'água", musical de Chico Buarque e Paulo Pontes que na década de 70 fez coro a uma das melhores fases do teatro brasileiro.
Inspirado na tragédia grega "Medéia" o espetáculo vale o ingresso pelo que tem a dizer. Desfile de minicertezas do cotidiano brasileiro e atuações que exigem por sua carga dramática. Destaques para Cláudio Lins (Creonte) e Izabella Bicalho (Joana). Papel interpretado na montagem original por nada mais, nada menos, que Bibi Ferreira.
O diálogo entre as personagens: Creonte (empresário e dono da vila) e a Jasão (sambista e futuro genro de Creonte), sobre o que vem a ser uma cadeira, e as relações de poder inerentes à usabilidade do objeto, é digno de registro.
A propósito da supervalorização da expressão "anos de janela" comecei a parar para pensar no que "anos de cadeira" pode significar.
By the way o fim de semana rendeu um belo passeio, mas qualquer desatenção pode ser a gota d'água.
TRECHO GOTA D'AGUA
(..)
CREONTE — Mas o que eu quero falar não é isso. É coisa muito importante
JASÃO — Sobre Alma?...
CREONTE — Não sei como começar (Tempo.) Essa cadeira... repare um instante... Já viu?...
JASÃO — Que é que tem?...
CREONTE — Escute, rapaz, você já parou pra pensar direito o que é uma cadeira? A cadeira faz o homem. A cadeira molda o sujeito pela bunda, desde o banco escolar até a cátedra do magistério. Existe algum mistério no sentar que o homem, mesmo rindo, fica sério. Você já viu um palhaço sentado? Pois o banqueiro senta a vida inteira, o congressista senta no Senado e a autoridade fala de cadeira. O bêbado sentado não tropeça, a cadeira balança, mas não cai. É sentando ao lado que se começa um namoro. Sentado está Deus Pai, o presidente da nação, o dono do mundo e o chefe da repartição. O imperador só senta no seu trono, que é uma cadeira com imaginação. Tem cadeira de rodas pra doente. Tem cadeira pra tudo que é desgraça. Os réus têm seu banco e o próprio indigente, que nada tem, tem no banco da praça um lugar para sentar. Mesmo as meninas do ofício que se diz o mais antigo têm escritório em todas as esquinas e carregam as cadeiras consigo. E quando o homem atinge seu momento mais só, mais pungente de toda a estrada, mais uma vez encontra amparo e assento numa cadeira chamada privada. (Tempo.) Pois bem, esta cadeira é a minha vida. Veio do meu pai, foi por mim honrada e eu só passo pra bunda merecida. Que é que você acha?...
Belas imagens, ótimos textos. Gostei muito do seu blog!
ResponderExcluirabs
Obrigado pela visita à bodega, Sueli!!! Esteja à vontade para suas críticas e inferências.
ResponderExcluirAbs