segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Disk Pizza



O ramalhete de flores na lata do lixo

Não é um ramalhete de flores...
É uma pequena amostra da briga na véspera.

O carimbo que repousa na almofada anil
Não é apenas um carimbo, mas o prenúncio
De férias ou recesso no gabinete.

A prima seminua no alto da escada
Não é uma cena sem precedentes.
No jantar, seu desejo partilhado por baixo da mesa.

Sobre o móvel, dinheiro em bichos de louça
Anunciam a economia dos novos tempos.
Renúncia encorajada até o sorteio do próximo bilhete.

O gol anulado é mais que um gol anulado
É a tristeza de uma nação inteira.

O telefone fora do gancho é mais que um sinal de espera.

AV | jan/2008

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Intima Ceia

 


Um dia, um pobre sapo, desses que passam a vida a contemplar a lagoa como se ela fosse o quintal do mundo e, no entanto, único. Degustando sua inútil e gasta sabedoria do pântano. Avistou uma jovem muriçoca em sua perna. Sugando. Plena, como se tivesse descoberto um recanto. Simples, livre... Sem noções de tempo e espaço. Sem se dar conta do perigo que corria ao saborear sua displicência, que chegava a ser poética.

 

O sapo vivia com fome pelos brejos e suas margens sossegadas. Paquerando sapas e pererecas de espécies exóticas, num incansável descontentamento. O tédio deu lugar à euforia; de imediato, pensou em devorar aquela jovial. Aceitando sua condição de sapo, como se obedecesse a um chamado. Necessitava acariciar o estômago, há muito preconizando, contudo, o insight certeiro. Travando sua astuta língua. No ar. Em frações de segundos deu-se conta de já ter ouvido falar daquela pequenina em especial, que um dia encantou o lugar com sua franqueza. Consciente de si, declarou aos quatro cantos daquele cenário pacato e de escassa sinceridade que possuía uma única certeza.

 

Angústia de toda sua existência díptera e entomófila – sendo esta última característica seu maior segredo. Afligia-se com a cega convicção que a acompanhava desde os bancos da escola. O desprazer de incomodar com seu zunido a todos a quem procurava para matar sua sede vital. Sina, destino, acaso, apenas de quem ama a vida. Vez em quando, por sorte, vivendo-a. Convivendo com sua certeza: um incompreensível barulho melódico. O sapo lembrando-se daquilo que ouvira falar um dia olhou para dentro de sua alma anfíbia não se reconhecendo. Inebriado no que restava de sua sensibilidade anura disparou, dono de si:

 

“Sorrateira e tão sozinha! Não devo matá-la, coooooooitada! Só possui uma certeza na vida. Há penas... Então a muriçoca, boba, mas pouco ingênua, apaixonou-se pelo sapo. Pelo seu gesto. Por suas palavras. Cooperação. O valor das trocas comerciais. Love history à Alencar. Deu-se conta de que não precisava mais de asas e, no entanto, era alada. A ladra. O sapo? Bem... aos poucos foi se sentindo roubado. Um convite à poça d’água. Suculentos mosquitos machos, pernoite pelas bandas de cá. Alcoviteira. Certeza de poucas vezes. Muriçoca e sapo, saciados. Ela mais...