Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Apressado come cru


Vinha pelo Bom Retiro alegre e com fome...
A vida não era fácil e o destino sorria sem graça.
Parou na praça pra comer um dog. (que dog)
Um guaraná pra acompanhar.
Estava com fome.

Na lanchonete, seu intuito era despretensioso, e sua fome era outra.
Inevitável!
Alimentou a cabeça com olhares.
Parou na beldade.

Sentou
Conversou
Exibiu
Flertou
Iludiu
Despistou
Interessou
Salivou
Sugeriu
Convidou
Pegou

Gol!

Gomes indagava a beleza de maneira particular...
Qual o teu Sobrenome?
- Fodida. Ei, eu tenho um irmão com teu nome?

Qual o nome da tua mãe?
- Vida
A minha também!
Tu é minha irmã, porra!

Deixou-a na praça...
De apetite não tinha mais fome
Devolveu um sorriso pro destino e pediu troco pro acaso.
Parou triste na praça pra comer outro dog.

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Terceiro Grau

Charge de Cristiano Gomes publicada no Jornal de Brasília

No momento em que os (tu)barões da mídia e o STF fumaram o diploma de Jornalismo, mais um poemeto do segundo grau...

Terceiro Grau


Sempre quis ir à Compostela...
Cursar Direito viver em uma maloca
E um dia, quem sabe, deduzir uma fórmula:
Quantos átomos te uma Coca-Cola?

Lidar com pessoas;
Matar ou morrer
De jaleco branco ser...

Livros empoeirados, que nada!
Olhos - esbugalhados - madrugada
A grana suada às vezes vem fácil!

Ser ou não ser?
No mínimo belo.
Shakespeare não foi um ator de novelas

Graus à mais, diplomas e pregos...

Não há vagas
Comida
Janelas
(preciso de um martelo)

Campus
Campos minados
Ali se vende vocação
Dentro acha-se o que se quer,
Mas meu coração não responde,
Só encontro palavras em verso.

SLZ / maio 2000

Domingo, 28 de Junho de 2009

Sarney escreve a sua biografia


As últimas revelações ocorridas no Senado Federal nos deixaram revoltados com o nível de picaretagem estabelecida naquele lugar. Legalidade, Impessoalidade, Moralidade, Publicidade e Eficiência, princípios da Administração Pública explicitados no Artigo 37 da Constituição e conhecidos por qualquer concurseiro mediano pela sigla LIMPE, foram guardados no bolso, esquecidos em gavetas ou simplesmente jogados no lixo.

Mas o acróstico da palavra LIMPE pode ter outras inferências... Mais uma vez, espaço público e privado se confundem e os "donos da lei", acima de qualquer norma estabelecida ou congênere, demonstraram não ter o menor respeito à seus mandatos. Em um jogo de manda e desmanda atos secretos foram escancarados.

Nesse momento, vemos em Brasília a personificação do rato que não pode apontar a sujeira ou tão pouco sugerir meios para que a limpem. Realmente, presidente, Vossa Excelência não foi eleita para por a mão na lixeira, autoincriminar-se ou punir seus nobres colegas. Seria um ato falho.

É um privilégio assistir a derrocada da personagem política mais odiada no estado do Maranhão. É um privilégio ainda sentir um resto de esperança... Na hora em que os holofotes da mídia desviam o olhar para o Legislativo rogamos para que Sarney encerre com chave de ouro a sua biografia.

Terça-feira, 16 de Junho de 2009

Fome de Gol


Assim é o craque.
Sempre o vemos com a inocência
de um primeiro olhar.
E a nossa sensação é a de
que é uma estréia renovada
de jogo para jogo.


(Nelson Rodrigues)

Fome de Gol


Quem nunca ouviu a expressão: "fome de gol", está morto. Definitivamente no país do futebol, possuir essa característica é mais que ser um mero artilheiro. Forjada numa época, em que a crônica esportiva cunhava pérolas e era lugar de craques como Nelson Rodrigues, a expressão é um conceito digno de uma breve reflexão...

Somos um povo acostumado a enfrentar as dificuldades de frente. Atacamos na condição de goleador e não de simples jogador, mas sofremos de uma "humildade neurótica".

Da mesma maneira que buscamos os atalhos em busca da meta, recompensa do esforço pela certeza de que se tentou, também existe um grito de gol engasgado em cada um de nós. Nem sempre o marcamos. Uuuuuuuuu... Na trave, pra fora, não era pra ser.

Na competição desleal em que a vida se transformou, jogar no ataque não é fácil e significa acender em si um brio esquecido, tomar de assalto o lugar de líder (e como são poucos atualmente). Ser admirado como o cara que faz a diferença em qualquer equipe e de quebra é adepto do fair play, seria perfeito.

Estar em condições de assumir esta responsabilidade requer preparação. Disposição para assumir compromissos e descascar abacaxis (primeiros passos para ser um goleador). Ser aquele que de fato, decide a partida com intuição, competência e aplicação tática.

Fazer gols é dizer a que veio. Em um gesto, coroar o trabalho de um grupo que joga contigo e por ti (não conseguimos nada sozinhos). Em um toque, inflamar a torcida que retribui aos gritos a sua comemoração.

A fome de que falo não é vã. É um certo tipo de motivação que nos leva pra frente, tradução perfeita do que vem a ser garra aplicada, clímax alcançado dentro e fora das quatro linhas de um gramado.

Domingo, 7 de Junho de 2009

Sobre Pingos e Gotas d'Água ou o Passeio e a Cadeira

"O passeio" de Chagall, destaque na exposição "Virada Russa"


Clássicos são para serem apreciados com prazer. A meticulosa arte de degustar cada sabor, cada gesto... E com uma boa companhia, hum... Sim, sem dúvida, nada igual. Nesse fim de semana fui saudado com 2 convites especiais. O primeiro para ver arte (confesso não ser o meu forte) o segundo para voltar ao teatro.

Fui ao CCBB ver a exposição "Virada Russa", a vanguarda na coleção do Museu Estatal Russo de São Petesburgo. Revelações sobre a transgressão entre o figuratismo e o abstracionismo. Por sua complexidade e sutilezas, quadros de dar nó em pingo d'água. Em destaque a obra "O passeio" de Chagal, único em sua temática e beleza.

Para desatar os nós fui ao teatro. Tratava-se de "Gota d'água", musical de Chico Buarque e Paulo Pontes que na década de 70 fez coro a uma das melhores fases do teatro brasileiro.

Inspirado na tragédia grega "Medéia" o espetáculo vale o ingresso pelo que tem a dizer. Desfile de minicertezas do cotidiano brasileiro e atuações que exigem por sua carga dramática. Destaques para Cláudio Lins (Creonte) e Izabella Bicalho (Joana). Papel interpretado na montagem original por nada mais, nada menos, que Bibi Ferreira.

O diálogo entre as personagens: Creonte (empresário e dono da vila) e a Jasão (sambista e futuro genro de Creonte), sobre o que vem a ser uma cadeira, e as relações de poder inerentes à usabilidade do objeto, é digno de registro.

A propósito da supervalorização da expressão "anos de janela" comecei a parar para pensar no que "anos de cadeira" pode significar.

By the way o fim de semana rendeu um belo passeio, mas qualquer desatenção pode ser a gota d'água.


TRECHO GOTA D'AGUA

(..)

CREONTE — Mas o que eu quero falar não é isso. É coisa muito importante

JASÃO — Sobre Alma?...

CREONTE — Não sei como começar (Tempo.) Essa cadeira... repare um instante... Já viu?...

JASÃO — Que é que tem?...

CREONTE — Escute, rapaz, você já parou pra pensar direito o que é uma cadeira? A cadeira faz o homem. A cadeira molda o sujeito pela bunda, desde o banco escolar até a cátedra do magistério. Existe algum mistério no sentar que o homem, mesmo rindo, fica sério. Você já viu um palhaço sentado? Pois o banqueiro senta a vida inteira, o congressista senta no Senado e a autoridade fala de cadeira. O bêbado sentado não tropeça, a cadeira balança, mas não cai. É sentando ao lado que se começa um namoro. Sentado está Deus Pai, o presidente da nação, o dono do mundo e o chefe da repartição. O imperador só senta no seu trono, que é uma cadeira com imaginação. Tem cadeira de rodas pra doente. Tem cadeira pra tudo que é desgraça. Os réus têm seu banco e o próprio indigente, que nada tem, tem no banco da praça um lugar para sentar. Mesmo as meninas do ofício que se diz o mais antigo têm escritório em todas as esquinas e carregam as cadeiras consigo. E quando o homem atinge seu momento mais só, mais pungente de toda a estrada, mais uma vez encontra amparo e assento numa cadeira chamada privada. (Tempo.) Pois bem, esta cadeira é a minha vida. Veio do meu pai, foi por mim honrada e eu só passo pra bunda merecida. Que é que você acha?...


Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

Voulez-Vous


Voulez-Vous


Estava morto. Mas recebeu a missão de fazer bem às mulheres. Como um anjo ou coisa parecida saía a comer pelas beiradas. Caminhava por praias. Céu cor de rosa, mar revolto sangue. Cavernas e grutas fétidas. Era um inferno astral qualquer.

Encontrava gente de todas as estirpes em seus sonhos. Jogava tarô e escondia os segredos dos desavisados. Entendia os sinais. É... Entendia os sinais e suas inferências. Falava com gente estranha, que dizia se fazer pouca coisa boa na Terra. Cansado de tudo chutou o balde. Partiu sem data para voltar e o compromisso de voltar. Voltou.

Pensava alto: - quem sabe a terra, o fogo, o ar e a água façam um mix e revelem a 66ª profecia. Quem sabe as respostas não pergunta ao vento. Essas picaretagens que só se revelam entre quatro paredes ou ao encontro de algo realmente nobre. Resignificar, desconstruir, moldar... Amassar a cara com o travesseiro e crer que as suas miniangústias são penitências maiores que os 12 trabalhos de Hércules.

Saudava o amanhã e suas possibilidades inerentes com a displicência de quem come um rolinho primavera em um fast food chinês. Fazia relatos do paraíso. Um negócio organizado com frutas maduras no ponto de serem exportadas. Por que não comê-las agora? Por que se estudar minuciosamente se todo dia tem prova?

Parou o avião na palma da mão direita. Um punhado de espelhos o trouxeram ao encontro. Borboletas gigantes, uma em cada perna o levaram para o passeio. Na sombra de uma árvore morreu com uma cerveja na mão, um crachá no pescoço e 2 tostões no bolso para os pães.

Os seus sonhos eram notícias extraídas de revistas de bordo, letras do ABBA na radio Pop, tudo para entreter passageiros. Espaçonaves que navegam entre céus, estrelas e seres.

Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

Sem cerimônias


Sem cerimônias

- (...) todo o cosmo se elevou!

Convenhamos... Parece uma frase de mangá sem estrelas, mas era com essa expressão, que ele falava orgulhoso do dia que conheceu Brícia. Hoje, conhecida como a maior profissional da Zona 23, disparada a maior concentração de 'preparadas' da cidade.

No começo todos sabiam, mas ninguém confirmava a fama da menina. Muito menos julgavam Che, que cego de paixão casou-se com Brícia. "Somos de uma galáxia distante, enfim nos encontramos!"

Dr. Ernestro Alvarenga Nunes, Che como autoapelidava-se, era bacharel em Direito com carteirinha da Ordem e tudo. Nas horas vagas, cafetão do raparigal e líder do movimento de construção de uma paróquia nas proximidades. Sempre embebido em sua convicção clerical, dizia que era pra salvar as almas de suas protegidas e dar legitimidade ao local.

- E aí como foi?
- Judiei da pilantra... - confessou com os olhos cerrados; e prosseguiu com a mão roçando o queixo.
- Joguei a vadia em cima da mesa, pediu que mandasse com força. "Fueda-me marmanjo!", gritava. À medida que empurrava o bruto, pediu que batesse na cara. Me chamava de cavalão.
- Cavalão?...
-Sim, cavalão!
- Deu na cara?
-Dei... Mulher de malandro, Peixoto? Qual é? Perdi a linha...
- Posso te falar uma coisa? Che, ta procurando quem fez aquilo com Brícia. - E tu não sabe da maior. Ela denunciou ele como autor da tua obra prima.

Com a voz embargada, retrucou:
- Deixa de brincadeira, Peixoto!
- Calma... Só eu sei quem foi o artista.
- Qual é? Tu acha mesmo que eu tô acreditando nessa porra?
- Meu nobre, vê lá como tu fala comigo. A coisa tá preta pro teu lado - sorria com ar sério e sacanagem disfarçada.

O malandro de minutos atrás, deu lugar a um Zé Ruela perdido.
- Então...
- É... Tu tá fudido.

Na mesma noite, a vagabunda tinha denunciado Che. Fizera corpo delito e todos os procedimentos que necessitava. Sem cerimônias, disse com todas as letras ao delegado: - Foi ele.

Che, compareceu espontaneamente à Delegacia. Indagado pelo polícia com os porquês de ter feito aquilo, negou insano até o fim. - Vou pegar você e o desgraçado que me ferraram!

- Cala a boca MALDITO! Eu só quero sair da putada, esgoelou Brícia.

O delegado sorriu e encerrou o caso. Em seus pensamentos felicitou-se: "Eu sou foda! Cavalão do caralho.".