terça-feira, 10 de novembro de 2009

Nas nuvens




Voava sempre na poltrona cuja numeração era a mesma de seus pés. Cacoete de quem queria manter uma estreita relação entre: o ato de voar e o que um dia fez de melhor em solo - 34! Repetia afoito à moça da companhia aérea quando escolhia comprar seus bilhetes. Não entendi, Sr.? Fileira 34?

Mendonça foi bom de bola, mas detestava holofotes.  Com seu pé de anjo levou o Expressinho à Terceirona do Campeonato Maranhense de Futebol em 1975. - Saudades do tempo em que eu era rei na Cohab, comentou com o passageiro ao lado. Essa de querer fazer amizade durante o voo era outra mania que cultivava. - Meu sonho era ter jogado no Moto Club, quase fui pra lá em 76. Era muito garoto, pestanejava.

Aficionado por futebol, mas com problemas no joelho esquerdo parou aos 25 anos. Mudou-se para Teresina (PI) onde conseguiu servir o Exército. - fui parar na  Intendência (logística da Força), era bom com a máquina de datilografar. Para pedir dispensa nos feriados e comemorações de fim de ano, matou a avó e a mãe muitas vezes. Mas aqueles tempos não eram bons, por pouco não foi parar na Guerrilha Araguaia. - escapei fedendo de ir para o Xambioá (pássaro veloz, em dialeto indígena), repetia essa história sempre que tinha oportunidade.

Com a bola dava seus pequenos espetáculos. No quartel era uma espécie de Gerson, mas a vida não corria sobre a Lei de mesmo nome, famosa lá pelos idos de 74. Depois de 5 anos aprendendo a ser burro, precisava de capim novo. Foi para São Paulo (SP). Poltrona 34 de um Itapemirim lotado de farofeiros. É... o frito (farofa de carne e/ou frango) rolava solto na caravana de nordestinos. Livres de suas descrenças. Alimentados de boa fé no que iriam encontrar.

Era hora de buscar. Contínuo, auxiliar de escritório, vendedor de ouro, gerente de vendas, numa lojinhas na Ramos de Azevedo. Cursou Administração e 2 períodos de Direito ( o suficiente para se dizer advogado). Viveu 7 anos em Sampa, aprendeu tudo e mais um pouco na escola da vida. Noivou 3 vezes, mas nunca casou. Voltou para São Luís (MA), onde fez família e seu pequeno pé de meia com a vivência acumulada.

Toda vez que voava eram inevitáveis as suas recordações. De como chegou ali. Nas nuvens, sentia-se perto de suas lembranças e do sagrado. - Mais uma água, por favor. Brindava com a recém amiga feita durante o voo. Virou empresário de jogador. Naquele momento ia para a Bélgica, assinar o contrato de mais uma promessa do futebol maranhense.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Confissões de um poeta aprendiz




Ouvindo "nãos" aprendi a somar breques.
Quando há carinho derrete-se,
voltando a ser rocha sem chão.
Mais difícil é acreditar,
que aprender seja apenas lembrar (ou não)

Bons pretextos bastam para que eu ouça.
Dual mistério de ser e não ser ao mesmo tempo.
Posto que tivesse algum, estaria satisfeito?

Que são mil anos?
E esses "sims" que não escuto,
teimando ouvir nesses muitos momentos:
- meu poeta!
Afirmação de instantes

Allyson Veras, SLZ,  maio de 2001

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Sobre caminhar na praça


Praça Batista Campos / Belém-PA


Estava quente, lá para aquelas bandas do Trópico Úmido. O corpo devagar ia se adaptando ao calor nada hospitaleiro. Sacudia a camisa com força, na esperança de que uma brisa estacionasse. " Tu és de onde?" Pergunta feita num sotaque particular, por uma atleta de fim de tarde que também buscava se refrescar. Respondi de bate pronto que era maranhense, mas há algum tempo fora de casa. No afã de uma boa dica para jantar, indicou-me um lugar já conhecido. Despediu-se, mas não aceitei repetir a dose. Caminhei em direção ao shopping mesmo, ao som de carros, ônibus e buzinas aceleradas. 

(...) E se todos tivessem tempo para rever seus conceitos, anular todo pensamento medíocre e mesquinho, o mundo seria diferente. Se aceitar a sua condição significa um martírio, o que se impões talvez não esteja certo.

(anônimo no banco da Praça Batista Campos, 
cartão postal de Nossa Senhora de Belém do Grão-Pará)

Não resisti. Parei para escutar discretamente a conversa do casal. Momento de reflexão e divagação fortuita. Quando estamos fora de casa, caminhar pelas ruas da nova cidade é obrigatório. O passeio público torna-se um minilaboratório do comportamento humano. Ali na praça não poderia ser diferente. Mesmo a visitado em  outra época, os sons, cheiros e aromas foram diferentes. De fato, um lugar bucólico que parece perdido na cidade de aranha-céus e desigualdade. Pausa para uma juçara* na esquina com a Serzedelo Correia.


* é como se diz açaí no Maranhão

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

O Pôster



Nem sempre é divertido encontrar textos antigos. Mas vira e mexe, acontece de resgatar um papel esquecido na gaveta. Esse ato de buscar o passado possui um significado comovente. Não há muito de especial nesse minipanfleto (receita antiga), mesmo assim, ofereço-o aos frequentadores da Bodega. Aproveito para indicar o surpreendente Casa do Poster, blog onde encontrei a pinup que ilustra o momento, além de muita propaganda boa de antigamente.

O Pôster

Redescobri um pôster no armário
dos tempos em que gozava sozinho.
Sorri por encontrar aquele pôster.
Ri, com uma dose de enigma nos olhos

Era uma pose séria, um olhar sexy
Carne, desejo e suor refletidos.
Na madrugada fria, neon decaído
na roda de amigos restrita aos bolores

O poster não é um surreal profano,
nem outdoor de cereal americano
Há muito o pôster é produto de exportação brasileira
Containeres de brancas, mulatas e loiras,
negras mulheres puras, queima em Roterdã

Allyson Veras 27/12/1999

sábado, 19 de setembro de 2009

Pequena história



Lendo o blog do Geneton Moraes Neto encontrei seus "arquivos implacáveis". Dez anos depois da morte do poeta autor de “Morte e Vida Severina”, uma preciosidade de João Cabral, um reacionário clássico.

“Tenho aversão à subjetividade. Em primeiro lugar, tenho a impressão de que nenhum homem é tão interessante para se dar em espetáculo aos outros permanentemente. Em segundo lugar, tenho a impressão de que a poesia é uma linguagem para a sensibilidade, sobretudo. Uma palavra concreta, portanto, tem mais força poética do que a palavra abstrata. As palavras “pedra” ou “faca” ou “maçã”, palavras concretas, são bem mais fortes, poeticamente, do que “tristeza”, “melancolia” ou “saudade”.

Em um livro antigo, de um autor desconhecido encontrei esse pequeno poema. Fala de amor quando há esperança. Definitivamente não faz o estilo de João Cabral.



Pequena história

Quando todo amor do mundo não é suficiente.
As ruas são desertos, estações de trem e pontos de fuga são nulos
Não se acerta o endereço de casa, o telefone do amigo próximo
E mesmo os sonhos não são mais necessários

Quando todo amor do mundo não é suficiente.
As paredes do quarto são projetores de minicertezas
Imagens desbotadas que não impressionam
Museu de arte sem espectadores ou obras raras

Quando todo amor do mundo não é suficiente
Sereias e princesas dão o ar da graça,
Nesse maravilhoso mundo de contos
O desencanto é pouso da esperança

Quando todo amor do mundo não é suficiente
Perde-se as chaves de casa, a condução de todo dia
Torna-se perigoso quando toda chama se apaga,
Mas a primavera se aproxima

Quando todo amor do mundo não é suficiente
Reminiscências existem para serem celebradas
Valores, conceitos e ações ganham asas
A poesia é dura e feita de matéria

A. Veras

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Notas sobre o pé de mamona - Biocombustíveis


O meio (ambiente) é alugar o Brasil?
A.V

Recentemente, vimos o comentário do presidente Barack Obama sobre a taxação do Etanol brasileiro, "Biocombustíveis são uma importante fonte de energia renovável, que vão ajudar a diversificar nossa matriz energética e reduzir nossa dependência do petróleo importado", continua o texto. "(...) quanto à tarifa dos EUA sobre o etanol brasileiro, o governo não tem planos de mudá-la."

Ora , o mundo está ciente de que fontes de energia renováveis são mais que uma mera estratégia de marketing verde, mas sim o futuro da política energética do mundo. Vejo que nesta disputa comercial, onde o Brasil domina com larga vantagem tecnológica, e alcança os maiores êxitos de produtividade, ainda é tímida a mobilização de organismos internacionais a nosso favor. A discussão dos biocombustíveis é a última questão no debate: comércio exterior X responsabilidade sócio ambiental, mas o que de fato temos evoluído nisso?

Enquanto se desvia o olhar para a exploração do Pré-sal os gringos estão a comprar as nossas lavouras de cana-de-açúcar no interior de São Paulo uma espécie de dumping social e ambiental requentado (pasmem! Não é nenhuma novidade). Não acredito que os atuais dispositivos de mediação comercial ou semelhantes arranjos externos emitirão brevemente parecer favorável aos produtores brasileiros de etanol.

Obama não tem interesse de contrariar a bancada ruralista, tão pouco, os produtores americanos de milho . Por outro lado, enquanto focam na produção em agroenergia minimizam esforços na produção agrícola voltada para alimentação.

A taxação aos produtos brasileiros sempre foi um problema sério, nesse caso em especial, alguns arranjos internos poderiam reverter esta situação. Contínuos investimentos em pesquisa para aumentar a produtividade do milho brasileiro, disseminação do uso responsável de insumos e principalmente políticas eficazes de transferência de tecnologia, que permita o grande e principalmente, o pequeno produtor, uma produção agrícola sustentável e competitiva.

É hora de rediscutir os parâmetros do agronegócio, bem como, expormos ao debate público as normas socioambientais que regem este jogo. Com o cenário atual, nossa capacidade de argumentação nas rodadas comerciais lá fora está reduzida. Continuaremos a ser citados como o país que destrói a Floresta Amazônica?

Não é de hoje a tese maldita de que alugar o Brasil, seria a solução para o desenvolvimento. A exemplo de dumping social e ambiental verificados nas lavouras de cana-de-açucar, vemos a instalação de grandes projetos siderúrgicos no Nordeste a troco de investimentos duvidosos e processos de gestão ambiental que definitivamente não atendem aos nossos interesses.

Nesse aspecto, o declínio político de oligarquias regionais, pautadas no clientelismo e congêneres, e a desburocratização do Estado com processos mais céleres e eficientes de licenciamentos ambientais, podem fazer frente aos pretextos de se instalar estes projet(éis)os de qualquer jeito e a qualquer preço em nosso país.

Marina, presidente?


Marina, presidente?

Acordei com a notícia de que a senadora Marina Silva, (ex-PT), filiou-se ao Partido Verde e é possível candidata à Presidência em 2010. Marina foi destaque no "The New York Times" deste fim de semana. "Em uma reportagem intitulada 'Uma criança da Amazônia que mexeu com a política de um país', o diário traça o perfil da parlamentar do Acre e diz que a sua pré-candidatura "abala" o atual cenário eleitoral brasileiro", noticiou o Estadão.

De vez em quando, a imprensa internacional é uma piada! Já começaram a semear um clima de esperança brejeiro e uma boa fé duvidosa semelhante a experimentada nas eleições de Lula . "de uma mulher humilde que superou a pobreza extrema e a doença para se tornar uma das maiores forças da política brasileira", romanceia a matéria de sábado do NYT.

Aos partidários de Marina uma dica simples. Da mesma maneira, que apararam a barda de Lula e o puseram ternos de grife, concentrem-se em tirar-lhe a cara de coitadinha e arranjem-lhe um belo sorriso.

A corrida eleitoral de 2010 começou, Dilma Rousseff já aposentou os óculos e fez plástica. Com a possível candidatura de Marina as questões ambientais terão destaque, tão quanto, a aparência dos presidenciáveis?


Só mais uma pergunta.



sábado, 1 de agosto de 2009

Quem Ama Inventa


Quem Ama Inventa

Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava...
E era um revôo sobre a ruinaria,
No ar atônito bimbalhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressurreições...
Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar de nossos corações
Batendo juntos e festivamente,
Ou sozinhos, num ritmo tristonho...
Ó! meu pobre, meu grande amor distante,
Nem sabes tu o bem que faz à gente
Haver sonhado... e ter vivido o sonho!

Mário Quintana

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Apressado come cru


Vinha pelo Bom Retiro alegre e com fome...
A vida não era fácil e o destino sorria sem graça.
Parou na praça pra comer um dog. (que dog)
Um guaraná pra acompanhar.
Estava com fome.

Na lanchonete, seu intuito era despretensioso, e sua fome era outra.
Inevitável!
Alimentou a cabeça com olhares.
Parou na beldade.

Sentou
Conversou
Exibiu
Flertou
Iludiu
Despistou
Interessou
Salivou
Sugeriu
Convidou
Pegou

Gol!

Gomes indagava a beleza de maneira particular...
Qual o teu Sobrenome?
- Fodida. Ei, eu tenho um irmão com teu nome?

Qual o nome da tua mãe?
- Vida
A minha também!
Tu é minha irmã, pooooooorra!!!

Deixou-a na praça...
De apetite não tinha mais fome
Devolveu um sorriso pro destino e pediu troco pro acaso.
Parou triste na praça pra comer outro dog.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Terceiro Grau

Charge de Cristiano Gomes publicada no Jornal de Brasília

No momento em que os (tu)barões da mídia e o STF fumaram o diploma de Jornalismo, mais um poemeto do segundo grau...

Terceiro Grau


Sempre quis ir à Compostela...
Cursar Direito viver em uma maloca
E um dia, quem sabe, deduzir uma fórmula:
Quantos átomos te uma Coca-Cola?

Lidar com pessoas;
Matar ou morrer
De jaleco branco ser...

Livros empoeirados, que nada!
Olhos - esbugalhados - madrugada
A grana suada às vezes vem fácil!

Ser ou não ser?
No mínimo belo.
Shakespeare não foi um ator de novelas

Graus à mais, diplomas e pregos...

Não há vagas
Comida
Janelas
(preciso de um martelo)

Campus
Campos minados
Ali se vende vocação
Dentro acha-se o que se quer,
Mas meu coração não responde,
Só encontro palavras em verso.

SLZ / maio 2000