quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Novos Instantes Velhos



não se respira composições
365 sóis e luas.
o poeta bebe numa fonte
que ninguém conhece.
(ele próprio desconhece)

não se respira
composições
365 trezentos e sessenta e cinco
auroras e crepúsculos.


a primazia do momento
às vezes, excede a crença 
de que pra se fazer versos 
é preciso os antigos conceitos 
dos dizeres almos em papéis.
o poeta respeita o poema
sobretudo o de
fome e
sede
é um insaciável
fala de boca cheia
de certo com os líricos passionais
entre os dentes.

sua fonte não deve secar
embora não se 
beba e coma
poesia
e que gostem mesmo de
alegorias símbolos e piadas eruditas

qual instante de composição dos novos poetas sem métrica?
não há um instante certo
tarde suas fontes secam
saúdem ou cuspam em seus novos instantes velhos



segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Disk Pizza



O ramalhete de flores na lata do lixo

Não é um ramalhete de flores...
É uma pequena amostra da briga na véspera.

O carimbo que repousa na almofada anil
Não é apenas um carimbo, mas o prenúncio
De férias ou recesso no gabinete.

A prima seminua no alto da escada
Não é uma cena sem precedentes.
No jantar, seu desejo partilhado por baixo da mesa.

Sobre o móvel, dinheiro em bichos de louça
Anunciam a economia dos novos tempos.
Renúncia encorajada até o sorteio do próximo bilhete.

O gol anulado é mais que um gol anulado
É a tristeza de uma nação inteira.

O telefone fora do gancho é mais que um sinal de espera.

AV | jan/2008

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Carne e livros aos homens de boa vontade!



Há algum tempo, lembro-me de ter folheado uma dessas revistas de consultório. Havia uma matéria particular. Era um consultório particular e suas atendentes simpáticas. No texto, o repórter contava que a última tendência entre a high society era comprar livros à metro. Estranhei... que putaria é essa!!! Pensei em voz alta. Não resisti. Li até o final. Apressadas em demonstrar erudição, as dondocas davam um toque de classe as suas residências, comprando livros à metro. Isso mesmo: preciso de 1 metro e meio de livros, meu senhor. Um momento madame...
Não importava o autor ou tão pouco o conteúdo da obra. O importante era ter uma capa e uma lombada bonita pra fazer um volume, digamos, razoável na estante. Qualquer menção em exagerar nos volumes, tipo Clássicos Gregos ou a coleção completa de Dostoievski passaria da dose. Soaria demasiado brega. O pior de tudo, é que pagavam preços altíssimos para os consultores de livros à metro. É. Existe essa categoria de profissionais. As socialites eram adestradas a gravarem uma meia dúzia de títulos e suas respectivas sinopses. Pronto. Estava resolvido o problema caso fossem questionadas sobre o acervo particular.
Digo por que me lembrei dessa história pitoresca. Em Brasília, o Sr. Luiz Amorim, homem simples e de poucas palavras, transformou o seu açougue localizado na Asa Norte, num açougue biblioteca. Isso mesmo. Adianto, que entre uma peça de picanha e outra, os livros não estão dispostos à metro nas prateleiras. Ou mesmo em liquidação, misturando-se com as carnes cruas. Alfabetizado aos 16 anos, Amorim, tem uma verdadeira paixão por livros e pelo hábito da leitura. Em seu açougue, as obras podem ser adquiridas, “aos quilos” através de empréstimo. E tudo de graça. – Um quilo de livros senhor...
Brincadeiras, à parte, a idéia começou em 1994 com apenas 10 títulos. Hoje passam dos 10 mil. Mas não é só isso, Amorim transformou seu comércio num dos espaços mais prestigiados da cena alternativa de Brasília. O Motivo? O T-Bone, açougue cultural, promove todas as quintas-feiras, um encontro de artistas e apreciadores da boa arte: música, noite de autógrafos, recitais, pintura ao vivo e variedades. Palquinho baixo e o público em volta, artistas como Tom Zé, Geraldo Azevedo já estiveram por lá. Para celebrar os 10 anos da quinta cultural, estão previstos Chico César, Moraes Moreira, Erasmo Carlos e Guilherme Arantes, entre outros.
Como se não bastasse, o incansável Luiz Amorim, encabeça o projeto Parada Cultural. Mini-bibliotecas espalhadas nos pontos de ônibus da W3. Os mesmos pontos de ônibus onde mataram o índio Galdino. Amorim é um exemplo a ser seguido em todas as cidades deste país. Nunca comprei sequer 1 quilo de carne moída, lá no açougue desse camarada. Mas já saí zoado de lá. Vida longa ao T-Bone, porque o Amorim talvez saia deputado. Carne e livros aos homens de boa vontade!
P.S.: T-Bone localizado na quadra comercial da 312, Asa Norte. Pra quem não sabe, T-Bone é um tipo de corte de carne bovina. Ele consiste em um osso em formato de "T" com carne dos dois lados. O lado maior é de contra filé, e o lado menor é filé mignon. Devido ao seu tamanho e à qualidade dos cortes que ele contém, o T-Bone é considerado um dos melhores cortes do boi. Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/T-Bone
Acessem: http://www.t-bone.org.br/

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Lady in Red

Bonecas de Pano, uma visão romanceada


conjuntinho jeans. básico barato. maquiagem vulgar esplêndida na cara.

nas mãos a última pitada. no destino estava montada.

em dos rostos feição de alegria. no outro, um semblante esquisito.

no boteco lembrava as noites perdidas. nos becos ladeiras do inferno.

o que pensava a pobre sem auréola? à vontade nas sujas vielas.

dos tempos que se era poeta. nos fins de crepúsculo e donzelas.

dura sela o destino a reservou. à beira da pista... escorada num poste.

seu último cigarro inodoro sem cor. amigos que a sina um dia levou.

luzes na neblina cegam os olhos. prantos engolidos nada simplórios.

vivência em nuvens de algodão. pensamentos úmidos, por que não?

sol das madrugrávidas. estrelas de esperanças. deitada na cama no teto do quarto.

“limpe-se, vista-se, e não me amole. E por favor diga que nunca me viu antes”.

o óbvio era óbvio. insensível. ameno e pouco possível...

era o deslizar suave de gametas, na usada furada e camisa-de-vênus.

marionete perfeita cores do mundo. apague as luzes! não acenderam-se...

- não julgue os meus filhos pelos meus erros juízes de esquina não me amolam.

Berg , uma história baseada em fatos reais


Parceiro meu não tinha se ligado que essa bodega tem um caráter estritamente comercial.
Rsrsrs.
Brincadeiras à parte... Segue Berg: uma homenagem a todos os "Peixotos" do Brasil... Em especial a Mário Buonocore


Berg, história baseada em fatos reais
 Para os Peixotos do meu Brasil


Tinha fama de cordial e educado, bom filho e funcionário padrão. Tudo levava a crer que desempenhava com zelo alguma nobre função na empresa a quem chamava, simplesmente, Vale. Alguns poucos sabiam de sua vida pessoal, preferia assim. Entretanto, não dispensava a pelada aos domingos e o chopinho esperto no campinho do bairro.
Diziam ter um futebol moleque e alegre. Tão pouco relaxava o famoso prato de mocotó servido por sua vizinha no bar da esquina, grata expectativa de socializar e mais uma vez se gabar do trabalho. Presença cativa na roda da malandragem amiga, exemplo de cara que venceu na vida, apontado pelas senhorinhas gordas como um modelo de bom menino. Apesar do jeito gabola, era popular e bem quisto. Era o bom moço, talvez gerente na companhia. Sempre impecável no ponto de passagem da linha 23. Pontual e correto a ir e vir pelas ruas do bairro.
De vez em quando, contava aos conhecidos de suas viagens à serviço pelo país, os problemas que tivera que resolver (sozinho), a rotina estressante de cursos, os treinamentos corporativos que ministrou, o naufrágio que evitou ao detectar um erro grotesco nos cálculos matemáticos de um analista iniciante. Tudo relatado de um modo particular. Conciso nos gestos e palavras. Uma lenda na empresa, sujeito indispensável e endeusado por grande quantidade de puxa-sacos, pessoas que dizia serem necessárias e mal cheirosas. Parte que não gostava de frisar, para não fazer propaganda de si mesmo.
Lia muito. Sabia bastante. Para tudo tinha uma explicação que passaria incólume para grande maioria de seus ouvintes (não eram poucos). Um caso raro de indivíduo que se adequava a qualquer perfil empreendedor e congênere.
Para os mais íntimos respondia pela alcunha de Berg. Para os demais era Lindiberg. Drº Lindiberg Madeira.
Costumava chegar cedo. Em um dos botequins próximos de casa, visava a mulherada que exalava essências e pouco suor próprio. Adoravam flertar as figuras com aquelas pulseiras de prata e letrinhas douradas (modinha cafona), cuidadosamente exibidas no pulso direito. Pilantrada gostosa que nunca lhe haviam mirado com a farda da empresa.
Aquele olhar cúmplice. Ela intencionalmente romanceou, dizia ter a impressão de o conhecer de outra vida, talvez de uma outra estação. Aquele sugestivo olhar de fazê-la pensar atrevida em seus mais impublicáveis segredos. Seu jeito animalesco de comer, como se macerasse sua vulva com os dentes. Sua farda, preponderante subterfúgio para ofuscar sua inata falta de classe. Disfarçada. Corrigida com ensaios exaustivos em frente ao espelho.
Depois de alguns dias ela já ligava na empresa, atenciosa que era com as coisas suas. Berg atendia doce: Oi, amor! Tudo bem? Muita saudade de você, um minuto por favor, meu bem. Entre... Drº Lindiberg, preciso que o senhor assine estes papéis, eles só estão dependendo do seu aval. O que é? Trata-se da contratação de 300 homens para serviços de implantação do novo píer. Ganhando a quanto? Quatrocentos e cinqüenta reais. Meu caro! Eu já disse que eu não quero exploração aqui na empresa! Isso não faz parte de minha filosofia de trabalho! Contrate 600 homens, ganhando setecentos reais. Algum gerente, doutor? Gerente aqui já basta eu!
E continuou: Ei, volta aqui! Quando eu estiver no telefone não me interrompa! Ouviu!!! Não me interrompa! Esta pessoa com que eu estava falando é de minha maior estima. Desculpa doutor... O telefone cuidadosamente posto em cima da mesa de modo a deixar a beldade impressionada com o conteúdo da conversa. Clara intenção livresca de definitivamente a ver fascinada com sua lida com os negócios.
Todos os dias iguais para Berg, seu ir e vir pelas ruas do bairro, seu sorriso alegre por gozar da admiração de todos. Mas havia algo no ar, os dias não pareciam ter a cumplicidade de antes.
Um ônibus lotado, muitos visitantes para conhecer a empresa. Berg em seu departamento trabalhando serenamente.
O sol das três. Um rolo de cordas. Cem quilos pra cada um. Berg e demais parceiros. Muita dificuldade e lerdeza na lida. - Vum bora peãozada! Rápido! Gritava o encarregado chefe. Berg sorria obediente.
O busão, leve a dobrar a esquina. A guia gostosa apresentando as dependências do novo píer. Os peões numa alegria contida, a brecharem sem vacilo cada janelinha do veículo. O grande susto. O tempo às vezes pára.
- Beeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeerrrggggggg!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Um clarão. Frações de segundos. O rolo despencando barranco abaixo. O pescoço acompanhando pateticamente o ônibus que se ia. Mais uma vez aquele olhar cúmplice. A peãozada debochada rindo sem sentido, como se pra rir tivesse que haver algum. Que foi isso bicho? Lembra da mina do telefone e que eu tô, tava, sei lá! Pegando? Era ela? Hum rum... O encarregado do outro lado. O que foi isso, bicho?... Que putaria foi essa, mermão??? Ruuuuaaaa! Ruuuuaaaa! Seu filho da puta!
Não se ouviu mais falar de Berg, em lugar algum.       

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

O Profissional


Não se considerava. Mas era um vagabundo profissional. Assustava a sua visão pueril do mundo. Tinha a “alma hippie”, alguns se apressavam em dizer. Eu? Eu era suspeito pra declarar qualquer coisa a respeito daquele sujeito. Que por si só era um case ambulante. Era canhoto. E isso fazia total diferença no ofício que desejava seguir. Não titubeava em alcançar as notas com suas cordas invertidas. Queria se dedicar a música. Ser músico profissional era um sonho que alimentava. Roubavam-lhe o chão com afinco, mas tudo bem... Os amigos próximos aconselhavam-lhe a procurar quem lhe ensinasse a técnica. Precisava de um professor. Um profissional.
Foi mais fácil que pensou. Surfando no Orkut. Mexendo, pra lá e pra cá, encontrou um amigo em comum. Era o cara! Dou aulas de contrabaixo elétrico com abordagem em harmonia. O cara era refinado. Tão bom que até apareceu na biografia do Tim Maia, publicada recentemente pelo Nelson Mota. Estava lá como referencial de comprometimento com a banda, que tocava horror naqueles idos de 70. Estava ali a oportunidade de lapidar seu som.
Tocou a campanhia. Sem muita frescura descreveu seu método de ensino. Focava disciplina nos exercícios e trabalho em conjunto. A propósito, só tinha sinistro matriculado na turma. Entusiasmados celebraram a parceria com um copo de conhaque e a promessa de não passarem, jamais, da quarta dose. Era o começo de uma amizade que renderia boas canções.
Sua música melhorou consideravelmente. Não era mais apresentado como uma promessa por seu mestre. Na noite, arriscava-se nos slaps e no swing diferenciado. Arrastava as cocotas pra onde interessasse. Tinha conseguido significativa melhoria em sua musica. Já gozava os inexperientes com boas tiradas: pra mal comedor até o saco atrapalha.
Chegado o grande dia! Era a hora de colocar os pingos nos is, tirar a prova dos noves, ou qualquer coisa parecida. Foi intimado a substituir seu mestre num grande show que pintara. – Cem reais tá bom pra você? – Só quero um cú e dois contos, parceiro! Nascia a lenda do diamante lapidado. Tinha se tornado um músico de profissionalismo incomum. A essa altura saudou o mestre com uma garrafa Johnny Walker Black a ser desvirginada.

Intima Ceia

 


Um dia, um pobre sapo, desses que passam a vida a contemplar a lagoa como se a mesma fosse o quintal do mundo e, no entanto único. Degustando sua inútil e gasta sabedoria do pântano. Avistou uma jovem muriçoca em sua perna. Sugando. Plena como se tivesse descoberto um recanto. Simples livre... Sem noções de tempo e espaço. Sem se dar conta do perigo que corria ao saborear sua displicência que chegava a ser poética.

O sapo vivia com fome pelos brejos e suas margens sossegadas. Paquerando sapas e pererecas de espécies exóticas, num incansável descontentamento. O tédio deu lugar a euforia, de imediato pensou em devorar aquela jovial. Aceitando sua condição de sapo, como se obedecesse a um chamado. Necessitava acariciar o estômago, a muito preconizando, contudo o insight certeiro. Travando sua astuta língua. No ar. Em frações de segundos deu-se conta de já ter ouvido falar daquela pequenina em especial, que um dia encantou o lugar com sua franqueza. Consciente de si declarou aos quatro cantos daquele cenário pacato e de escassa sinceridade que possuía uma única certeza.

Angústia de toda sua existência díptera e entomófila – sendo esta última característica seu maior segredo. Aflingía-se com a cega convicção que a acompanhava desde os bancos da escola. O desprazer de incomodar com seu junido a todos a quem procurava para matar sua sede vital. Sina destino acasos apenas, de quem ama a vida. Vez em quando, por sorte vivendo-a. Convivendo com sua certeza: um incompreensível barulho melódico. O sapo lembrando-se daquilo que ouvira falar um dia olhou para dentro de sua alma anfíbia não se reconhecendo. Inebriado no que restava de sua sensibilidade anura disparou dono de si:

“Sorrateira e tão sozinha! Não devo matá-la, coooooooitada! Só possui uma certeza na vida. Há penas... Então a muriçoca, boba, mas pouco ingênua apaixonou-se pelo sapo. Pelo seu gesto. Por suas palavras. Cooperação. O valor das trocas comercias. Love history à Alencar. Deu-se conta de que não precisava mais de asas e, no entanto era alada. A ladra. O sapo? Bem... aos poucos foi se sentindo roubado. Um convite à poça d’água. Suculentos mosquitos machos, pernoite pras bandas de cá. Alcoviteira. Certeza de poucas vezes. Muriçoca e sapo, saciados. Ela mais...



3 poemetos esquecidos na gaveta


Em minha última ida a Slz, tive o prazer de reencontrar grandes e velhos amigos. Usando uma expressão do meu mano velho Rafa Franco, exilado em seu harém no Rio de Janeiro, esses dias estão sem dúvida nenhuma, entre os Top 5 de nossas vidas! Dedico estes 3 textos as mulheres de qualquer sacada brejeira. No topo de qualquer capital... A propósito: hamburger ou pizza???




intimação


disposição plena...
(sorriso e olhos)
assim interpelou-me.
pasmem!
de longe a observo:
pacata e só.
no entanto,
um convite à mesa do bar.
permuta de imagens...
paciente abandono (de) cadeiras vagas.
mais sorriso e olhos,
na eminência breve que chegasse...
Aqueles Dias
(...) Eu chego cedo. Que mal teria se tivesse atrasado?
Nesse? Justo! Susto na certa...
Mas a tua saudade é um chamado e um chá de cadeira que me dás, medo de falhar de vontade.
É rapidinho(a) Se quiseres que te tenhas outra vez. Parto metade do que tenho de mim e te dou um quarto... Quase nada.
Na porta de entrada, você de cara amarrada pra qualquer quadro temática ou anonimato do pintor francês na parede.
— Cézanne ou Monet!? — Pede um filé, bebê.


sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

O vendedor de bananas





Numa manhã preguiçosa de segunda-feira, estacionou a bicicleta em frente à casa de cômodos.
Fazia menção em negociar os seus produtos. À porta do lugar, entreolhavam-se... Pairava um ar brejeiro e de extrema ingenuidade. Trazia a mercadoria na garupa de sua Barra Forte enferrujada, propositalmente, para evitar que a roubassem. Tinha negócios na travessa Pillar de Almeida, no Centro da cidade.

A contar pela pouca maquiagem estava de folga, seus olhos eram negros, sua pele lisa e suas pernas grossas. Um convite a passear por suas curvas, que não eram poucas. A curva principal era a de seu sorriso a iluminar os que passavam. Certo da impossibilidade de algo mais e inebriado com a cena que passava em câmara lenta, a contemplava calado, como quem ouvisse suas pedaladas e o som do vento, ao longo da estrada. Tomou coragem e apregoou:

– Bananas, senhora? Ela se aproximou macio, sorridente, como quem precisasse saciar uma necessidade primeira, sussurrou lento:
– Não como sem banana, viu? Pareceu-lhe uma obviedade vinda da pequena, par perfeito para aliviar as tensões da vida sofrível de vendedor de frutas.

Negociou e soltou a máxima. – O senhor já se deu conta, que ganha a vida “vendendo alegria às pessoas”. Vindo da beldade soou até como um reclame, uma espécie de slogan mútuo...

– Que isso, senhora! Sou disso, não!!!

À porta do cabaré, pronunciou a frase com uma prudência improvável, recato digno de uma virgem.
Entregou-lhe uma dúzia de bananas. Intrigado com a sabedoria da boneca, que via algo mais em suas frutas, pedalou sua bike até a quitanda próxima.

Com um sorriso no rosto, se deu conta de que vendia alegria às mulheres do bairro.

Allyson Veras

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Ontem - Primo post

Amigos, inauguro esta bodega com um poema que guardo na mente com enorme carinho. Uma verdadeira lembrança lírica, por vezes dito aos amigos nos melhores botecos da cidade.

Ontem
houve tempos em que sorriste
e não criptografei teu gozo.

não era o único
sem entender a necessidade
da tua presença nua.

teu coração gritava
sem a capacidade exata
de saber se atravessava
ou não a rua.
estavas com fome
e eu ali, do teu lado.

num relance mágico
cá estava com óculos e
um punhado de bicarbonato.
trágico. era tudo tão yellow and white.

quem eras não estava lá.
eu já não estava.
jamais.
ibidem.

allyson veras