sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

A propósito


A propósito


(...) eu queria ter óculos escuros pra não ver a luz da hipocrisia.
Uma bebida nacional pra morrer no outro dia.
Um perfume floral pra disfarçar a catinga.

aprenderemos a conviver com o mal?
colarinhos à boa mesa.
sistema ignorante de verdades violentas

eu queria ter um deus, desses honestos
pão à ceia, vinho não!... sangue mesmo
preciso de uma banho de mar mas a praia é particular

geração vencida triste corrompida
querem enxugar a máquina a qualquer custo
eu queria fumar meu baseado meu cigarro de lamentos
ter coisas simples sou um miserável leigo

quero matar a sede saciar a fome
excretar miragens ver surgir as nuvens
mergulhar no infinito acreditar no mundo

estar sóbrio de novo

eu queria ter um velho violão pra dedilhar os nervos
analgésicos pra razão.
amnésia pra renascer

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Notas de um Menino Rançoso



Sou de um tempo que ensinavam OSPB no colégio e que as nuvens não eram cinzas por acaso. Guardávamos água em potes de barro e a esperança, não surpreendente, no altar. Permitíamo-nos bons horizontes e nem morávamos em Minas. Sóis pra uma vida inteira e não éramos românticos. Persistia o sonhado momento de nos sentirmos homens livres naquele país dos trópicos.

Uma cerveja gelada na Beira-Rio, dropes de hortelã nos bolsos e algumas desculpas pros pais, muitas vezes foram a receita... Lembro com um certo lirismo poético daquela tarde inventada pra nós. Corpinhos à beira do rio, mostrando suas qualidades que despertavam um certo frison na galera esperta que brechava libidinosamente. Ali as moças salientavam um desejo comunal de serem vistas, nem por isso menos belas. Não mais, sassaricavam meigas à procura do melhor olhar. Patética tentativa de encontrarem o tom, o charminho perfeito.

Cá estava à mercê de um colapso. Tamanho desespero de encontrar um meio que disfarçasse minha empolgação. Surge uma musa... Sorrindo-me num idioma desconhecido. Ao som de qualquer coisa parecida com música e que respondia pelo slogan “vem comer farofa”. Ela confessou-me pausadamente. Adoro essa música, eles em geral, mas sou muito eclética (palavra usada por toda espécie de indivíduo que deseja manifestar seu irregular e desestimulante gosto musical). Taquixidumdum (bis). Vem dançar. Convidei-a para um banho de rio, levando-a sem muita resistência, pro lado esquerdo sombra fresca. Intencionava aquele vai e vem gostoso. Movimentos de feedback reminitentes que a pouco teorizava.

Alguns sinais teimosos à margem. Ruptura. Súbita. Ela foi embora. Pediu que pegasse seu telefone com um conhecido próximo. Seu nome tinha um sufixo escabroso e contente salientava não morar mais na periferia. O marido havia chegado pra comemorar, faziam três anos juntos. Não pensava em divórcio. Conhecia as novas leis. Soube de tudo, posteriormente, depois de mais uma saída juntos. Sem compromisso. Sem culpas.

Com um sotaque do sul até em tão adormecido, ela saudou-me com um gozo de rara preciosidade. O melhor, disse-lhe com empolgação adolescente. Pediu a conta. Eu prontamente fui pegar. Entreguei-a. Ela brincou fingindo não ter dinheiro. Sem vergonha olhei-a nos olhos. Até dividiria mas cê sabe, estudante... Sacou alguns cruzados da bolsa. Não esperamos troco. Próximos de casa. Foi bom. Foi ótimo. Obrigado pelo sushi. De nada. Dorme tranqüila. Vou pensar em ti, no teu sorriso... Cheguei em casa, tomei a benção a minha mãe e fui dormir.

Quase. Um telefonema. Amigos injustamente presos. Inconformismo leigo. Não podíamos fazer nada. Não éramos de nada. Sumiram. Muitos dias... Nada. Sem notícias. Um nada que trucida e agoniza. Mais um cigarro e poucas lembranças dignas. Meus onze anos e aquela libido engraçada, escondido debaixo da cama com a filha da empregada. Devagarzinho. Brincadeirinha. Um sem noção. Meu primeiro vexame escolar. - Cala a boca, cabeça de chupa pau! Coordenação (per) fumada. Não repita mais essa palavra seu moleque! - Tá bom tia, eu não falo mais p... Menino! Eu na porta chorando. Risos. Coitadinho, chorou à bessa. Não sabendo que a tia dele adora um pau.
Noites de maio, eu espreitando as meninas que saíam à noite pra comer barro nas paredes vazias das casas de taipa. Talvez as tias beatas tivessem lhe contado da historinha bíblica do homem de barro. Seu primeiro contato carnal. O meu? Tínhamos treze anos, penugens à vontade e cultivava um ralo bigode. Menino velho, acesas lembranças e uma existência pouco levada a sério.

Meus vinte anos e a aposta com o único amigo vivo. Ricos aos quarenta promessas de uma casa na praia pra aquele que naquela altura da vida se sentisse um completo idiota. Não conseguimos ficar ricos, mas um pouco ridículos com esses abdomens ignóbeis. Hoje, eu puto da vida, cheio do climão de repartição que tomava conta do gabinete, lendo vestígios de um conto brejeiro que insistia em acabar. Berrando com meu chefe. Mandando-o calar a boca daquele jeito particular da infância. Um jornal ao lado. Um piquete embaixo. Me lixo pra essa tal reforma da previdência, pois ainda sobra-me um pouco de gozo reprimido. Sobrevivo. Tenho uma barba espessa, oferecem-me poltronas nos ônibus e em casa alguns ainda tem tempo de chamarem-me de vovô.