sexta-feira, 25 de julho de 2008

Loucos de pedra


foto: Herick Murad


Brasília vive um momento especial. Prepara-se para comemoração de seus 50 anos em 2010 e vive a expectativa de ser escolhida uma das sedes da Copa do Mundo em 2014. Para alguns analistas a escolha é dada como certa. Como toda grande cidade que se prepara para festividades desse nível, Brasília precisa em um curtíssimo tempo, oferecer melhores condições de infraestrutura aos moradores e visitantes que por aqui estarão. Essa caminhada requer uma população consciente do que está por vir. De olho nas ações a serem implementadas. E um poder público atuante, certo do papel de buscar as melhores alternativas para todos.

As ações incluem melhorias na segurança pública, disponibilização de mais leitos nos hotéis, atenção especial à conservação e manutenção dos monumentos e pontos turísticos da cidade, por exemplo. Afinal, a capital pertence ao seleto grupo de cidades Patrimônio da Humanidade. No entanto, nenhuma questão chama tanto atenção quanto a do transporte público.

Brasília se transformou em verdadeiro canteiro de obras. Reclames em cima de reclames publicados no horário nobre. Viadutos, duplicação de vias, ampliação do metrô, renovação da frota de ônibus coletivos e substituição das chamadas vans do transporte alternativo por microônibus. Ainda estão previstos 600 Km de ciclovias em todo Distrito Federal e a implantação do VLT e VLP. Veículos leves sobre trilhos e pneus, respectivamente. Incrementos vitais estão sendo feitos pelo governo local somados a esforços que vem desde o Palácio do Planalto até o Banco Mundial. Em meio a essa faxina, que mais do que bem intencionada cheira a reeleição, uma medida me chamou atenção.

Baseados no projeto Brasília Limpa do GDF, há pouco mais de dois meses, fiscais da Administração de Brasília derrubaram a marretadas alguns tótens poéticos instalados nas paradas de ônibus da avenida W3. Alegaram que as placas atrapalhavam o acesso aos ônibus. Mas desde quando esses funcionários entendem de acessibilidade, mobilidade ou qualquer coisa relacionada a transporte público?

Não eram quaisquer pontos de embarque e desembarque de passageiros entregues a correria do dia a dia. Eram paradas poéticas. Ali existiam belos mosaicos com textos poéticos. Poesia cravada nas veias da cidade. Trabalho idealizado há quatro anos pelo artista plástico e líder do grupo de artistas e poetas
Loucos de Pedra, Henrique Gougon (61).

É uma lástima e uma tremenda burrice medida tão impopular e despropositada. Temos grandes e graves problemas no transporte público que estão sendo resolvidos. Mas desde quando poesia atrapalha a vida? O ir e vir de quem precisa tomar um coletivo? Os mosaicos não descaracterizavam a cidade e suas áreas tombadas. Muito pelo contrário, com suas mensagens contribuíam sim, para organização de um ideal de paz. Além disso somavam-se a construção da identidade de Brasília. Cidade que por ser jovem, e mesmo dispor de um sem número de elementos que a identifique, ainda é carente de referenciais desse tipo. A mesma poesia concreta que recebe o descaso das autoridades locais, enfeita com dizeres de Paulo Freire os jardins do MEC na Esplanada.

A foto que ilustra este post é um manifesto do grupo Loucos de Pedra contra a demolição dos mosaicos instalados nas paradas 509/510 Sul da W3. Na ausência das placas poéticas publicaram seus mosaicos nas calçadas. Versos de P.J. Cunha que emocionam àqueles que ali enxergam adiante. Longe da miopia de certos burocratas e "bem intencionados" de plantão. Tentem acabar com os mosaicos da W3, mas demolir o chão e a poesia incrustada nos corações dos que por ali vivem e passam, realmente não dá. Há mais o que se fazer, de fato, por esta cidade.

sábado, 5 de julho de 2008

Colombina


olhos abertos para o caos!
avistei-me na vitrina dos pesadelos ancestrais
saboreando bordões e idéias prontas.
há cervejas no braço da poltrona amassada
incensos da véspera nos cinzeiros da sala
um gato preto mira-me do décimo terceiro andar.
dos auditórios circenses, laboratórios da anti-retórica
e entreguismo clássico, vazou um segredo mágico.

degustei um quilo de clichês,
12 centavos a dúzia ou era o par?
era um verso de Murilo Mendes.
- num sol de tarde, devia ser praia?...

fugi do desejo alienado de parecer fácil
ou aparecer fácil! de fato:
era a bela esparramada na sala
em meio as crianças a falar bobagens
palavras vulgares
inconseqüências de seu gênio vago.

- venho muito respeitosamente, pedir-lhe
que desplugue-se e caia fora do meu rack!!!
sem ignorância chutei-a barraco à fora
recomendei que não voltasse
recordei o dia que a havia comprado.
às vésperas do Plano Collor, pra que poupar?

velha TV
sem reputação e controle remoto
pobre TV
à toa com seus tons mal acabados
impinando a tela sem necessidade
mostrando qualquer promessa de plástica (digital).

de suas janelas hi-techs
vendo a TV ao relento
a Internet bradou sua crítica contra os canais-massa.
apressada publicou em seus blogs
traduziu em winks... emotions grátis :) :p ;)
- TV de ratos jogos piada traseiros ovóides
peitos gozados glicose lágrimas
fruto de seu tubo de imagem poluído e
um alto falante tagarela como um rádio.
Horas em frente a qualquer sítio Google, pode.

na rua confortaram-na ouvindo o seu negócio.
mais tarde, um drinque no boteco próximo.
embriagaram-se ao som de imagem e voz.
times da segunda divisão da bola.

o popular assistindo não controlou a emoção.
levou-a no colo sem restrição.
bonitinha, poucas polegadas
acomodou-a no quarto sem preconceito de marca
compro-lhe um controle e ainda fez-lhe um check-up.
penosamente a quis requintada.

por vezes lembrava de sua pose no bar
colocava no Esporte ou tirava-lhe do ar
mata-tempos: subestimou seu ócio.
fugiu com um home theater e um LCD ignóbil.
final da curtição de um Pierrot assíduo sem lógica.
fingiu tudo fim de tudo:
- não creio em santas, pay per views ou estatais...

mas como era o nome dela?
do grego tele - distante
do latim visione - visão
nomes em almanaques.