sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A mulher que passa


A vista estava ruim, mas insistia com aquele hábito. Dizia gostar de ler a Bíblia como experiência meramente literária. Suas parábolas e mitos o faziam crer em um mundo melhor. Insistia em ir à missa aos sábados. Na estante do quarto, Kierkegaard piscava com um olhar discreto e desinteressado. Às 4 da manhã, entre uma dose e outra, as paredes compartilhavam sua sede de vontade. Tinha desejo de gritar, encontrar um fio de esperança no mundo, mas revelar suas angústias daquela forma, soava imprudente demais.

Todos os dias contemplava a rua e o irmão sol. A virgindade natural de cada novo dia. A mulher, que de manhã passava em seu caminhar apressado, tornava o banho mais agradável. Era feliz, mas estava envelhecido por dentro. Aos 37 anos vivia a ditadura da conformidade em que o mundo parecia estar metido. Passar em um concurso público, comprar uma casa, casar, ter filhos. Mas não resistia viver o caos e a liberdade de desafiar o que lhe impunham.


O trânsito incomodava mais que a sua gastrite. Já preferia ir de ônibus para o trabalho. Em um dia comum e de pouca paciência com buzinas,  encontrou a mulher que havia acostumado-se a homenagear durante o banho. Cabisbaixa, melancólica, soluçava baixinho em frente a passarela.

Teria brigado com namorado? Um ente querido falecido? Qual seria o seu nome? A cena comovia, mas não teve coragem de abordá-la. A mulher que a essa altura chorava copiosamente é a mesma que todos os dias tinha uma luz diferente e olhar sugenere de donzela. Tomar banho pela manhã não teria mais o mesmo gosto e a mesma cor.

Allyson Veras

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Nas nuvens



Voava sempre na poltrona cuja numeração era a mesma de seus pés. Cacoete de quem queria manter uma estreita relação entre: o ato de voar e o que um dia fez de melhor em solo - 34! Repetia afoito à moça da companhia aérea quando escolhia comprar seus bilhetes. Não entendi, Sr.? Fileira 34?

Mendonça foi bom de bola, mas detestava holofotes.  Com seu pé de anjo levou o Expressinho à Terceirona do Campeonato Maranhense de Futebol em 1975. - Saudades do tempo em que eu era rei na Cohab, comentou com o passageiro ao lado. Essa de querer fazer amizade durante o voo era outra mania que cultivava. - Meu sonho era ter jogado no Moto Club, quase fui pra lá em 76. Era muito garoto, pestanejava.

Aficionado por futebol, mas com problemas no joelho esquerdo parou aos 25 anos. Mudou-se para Teresina (PI) onde conseguiu servir o Exército. - fui parar na  Intendência (logística da Força), era bom com a máquina de datilografar. Para pedir dispensa nos feriados e comemorações de fim de ano, matou a avó e a mãe muitas vezes. Mas aqueles tempos não eram bons, por pouco não foi parar na Guerrilha Araguaia. - escapei fedendo de ir para o Xambioá (pássaro veloz, em dialeto indígena), repetia essa história sempre que tinha oportunidade.

Com a bola dava seus pequenos espetáculos. No quartel era uma espécie de Gerson, mas a vida não corria sobre a Lei de mesmo nome, famosa lá pelos idos de 74. Depois de 5 anos aprendendo a ser burro, precisava de capim novo. Foi para São Paulo (SP). Poltrona 34 de um Itapemirim lotado de farofeiros. É... o frito (farofa de carne e/ou frango) rolava solto na caravana de nordestinos. Livres de suas descrenças. Alimentados de boa fé no que iriam encontrar.

Era hora de buscar. Contínuo, auxiliar de escritório, vendedor de ouro, gerente de vendas, numa lojinhas na Ramos de Azevedo. Cursou Administração e 2 períodos de Direito ( o suficiente para se dizer advogado). Viveu 7 anos em Sampa, aprendeu tudo e mais um pouco na escola da vida. Noivou 3 vezes, mas nunca casou. Voltou para São Luís (MA), onde fez família e seu pequeno pé de meia com a vivência acumulada.

Toda vez que voava eram inevitáveis as suas recordações. De como chegou ali. Nas nuvens, sentia-se perto de suas lembranças e do sagrado. - Mais uma água, por favor. Brindava com a recém amiga feita durante o voo. Virou empresário de jogador. Naquele momento ia para a Bélgica, assinar o contrato de mais uma promessa do futebol maranhense.

sábado, 19 de setembro de 2009

Pequena história



Lendo o blog do Geneton Moraes Neto encontrei seus "arquivos implacáveis". Dez anos depois da morte do poeta autor de “Morte e Vida Severina”, uma preciosidade de João Cabral, um reacionário clássico.

“Tenho aversão à subjetividade. Em primeiro lugar, tenho a impressão de que nenhum homem é tão interessante para se dar em espetáculo aos outros permanentemente. Em segundo lugar, tenho a impressão de que a poesia é uma linguagem para a sensibilidade, sobretudo. Uma palavra concreta, portanto, tem mais força poética do que a palavra abstrata. As palavras “pedra” ou “faca” ou “maçã”, palavras concretas, são bem mais fortes, poeticamente, do que “tristeza”, “melancolia” ou “saudade”.

Em um livro antigo, de um autor desconhecido encontrei esse pequeno poema. Fala de amor quando há esperança. Definitivamente não faz o estilo de João Cabral.



Pequena história

Quando todo amor do mundo não é suficiente.
As ruas são desertos, estações de trem e pontos de fuga são nulos
Não se acerta o endereço de casa, o telefone do amigo próximo
E mesmo os sonhos não são mais necessários

Quando todo amor do mundo não é suficiente.
As paredes do quarto são projetores de minicertezas
Imagens desbotadas que não impressionam
Museu de arte sem espectadores ou obras raras

Quando todo amor do mundo não é suficiente
Sereias e princesas dão o ar da graça,
Nesse maravilhoso mundo de contos
O desencanto é pouso da esperança

Quando todo amor do mundo não é suficiente
Perde-se as chaves de casa, a condução de todo dia
Torna-se perigoso quando toda chama se apaga,
Mas a primavera se aproxima

Quando todo amor do mundo não é suficiente
Reminiscências existem para serem celebradas
Valores, conceitos e ações ganham asas
A poesia é dura e feita de matéria

A. Veras

sábado, 1 de agosto de 2009

Quem Ama Inventa


Quem Ama Inventa

Quem ama inventa as coisas a que ama...
Talvez chegaste quando eu te sonhava.
Então de súbito acendeu-se a chama!
Era a brasa dormida que acordava...
E era um revôo sobre a ruinaria,
No ar atônito bimbalhavam sinos,
Tangidos por uns anjos peregrinos
Cujo dom é fazer ressurreições...
Um ritmo divino? Oh! Simplesmente
O palpitar de nossos corações
Batendo juntos e festivamente,
Ou sozinhos, num ritmo tristonho...
Ó! meu pobre, meu grande amor distante,
Nem sabes tu o bem que faz à gente
Haver sonhado... e ter vivido o sonho!

Mário Quintana

terça-feira, 16 de junho de 2009

Fome de Gol


Assim é o craque.
Sempre o vemos com a inocência
de um primeiro olhar.
E a nossa sensação é a de
que é uma estréia renovada
de jogo para jogo.


(Nelson Rodrigues)

Fome de Gol


Quem nunca ouviu a expressão: "fome de gol", está morto. Definitivamente no país do futebol, possuir essa característica é mais que ser um mero artilheiro. Forjada numa época, em que a crônica esportiva cunhava pérolas e era lugar de craques como Nelson Rodrigues, a expressão é um conceito digno de uma breve reflexão...

Somos um povo acostumado a enfrentar as dificuldades de frente. Atacamos na condição de goleador e não de simples jogador, mas sofremos de uma "humildade neurótica".

Da mesma maneira que buscamos os atalhos em busca da meta, recompensa do esforço pela certeza de que se tentou, também existe um grito de gol engasgado em cada um de nós. Nem sempre o marcamos. Uuuuuuuuu... Na trave, pra fora, não era pra ser.

Na competição desleal em que a vida se transformou, jogar no ataque não é fácil e significa acender em si um brio esquecido, tomar de assalto o lugar de líder (e como são poucos atualmente). Ser admirado como o cara que faz a diferença em qualquer equipe e de quebra é adepto ao fair play, seria perfeito.

Estar em condições de assumir esta responsabilidade requer preparação. Disposição para assumir compromissos e descascar abacaxis (primeiros passos para ser um goleador). Ser aquele que de fato, decide a partida com intuição, competência e aplicação tática.

Fazer gols é dizer a que veio. Em um gesto, coroar o trabalho de um grupo que joga contigo e por ti (não conseguimos nada sozinhos). Em um toque, inflamar a torcida que retribui aos gritos a sua comemoração.

A fome de que falo não é vã. É um certo tipo de motivação que nos leva pra frente, tradução perfeita do que vem a ser garra aplicada, clímax alcançado dentro e fora das quatro linhas de um gramado.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Voulez-Vous


Voulez-Vous


Estava morto. Mas recebeu a missão de fazer bem às mulheres. Como um anjo ou coisa parecida saía a comer pelas beiradas. Caminhava por praias. Céu cor de rosa, mar revolto sangue. Cavernas e grutas fétidas. Era um inferno astral qualquer.

Encontrava gente de todas as estirpes em seus sonhos. Jogava tarô e escondia os segredos dos desavisados. Entendia os sinais. É... Entendia os sinais e suas inferências. Falava com gente estranha, que dizia se fazer pouca coisa boa na Terra. Cansado de tudo chutou o balde. Partiu sem data para voltar e o compromisso de voltar. Voltou.

Pensava alto: - quem sabe a terra, o fogo, o ar e a água façam um mix e revelem a 66ª profecia. Quem sabe as respostas não pergunta ao vento. Essas picaretagens que só se revelam entre quatro paredes ou ao encontro de algo realmente nobre. Resignificar, desconstruir, moldar... Amassar a cara com o travesseiro e crer que as suas miniangústias são penitências maiores que os 12 trabalhos de Hércules.

Saudava o amanhã e suas possibilidades inerentes com a displicência de quem come um rolinho primavera em um fast food chinês. Fazia relatos do paraíso. Um negócio organizado com frutas maduras no ponto de serem exportadas. Por que não comê-las agora? Por que se estudar minuciosamente se todo dia tem prova?

Parou o avião na palma da mão direita. Um punhado de espelhos o trouxeram ao encontro. Borboletas gigantes, uma em cada perna o levaram para o passeio. Na sombra de uma árvore morreu com uma cerveja na mão, um crachá no pescoço e 2 tostões no bolso para os pães.

Os seus sonhos eram notícias extraídas de revistas de bordo, letras do ABBA na radio Pop, tudo para entreter passageiros. Espaçonaves que navegam entre céus, estrelas e seres.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Antonio Vieira: o último bamba maranhense

Antônio (Luz) Vieira

Com muita tristeza, soube hoje pela manhã, do falecimento de seu Antônio Viera (1920-2009). Cantor maranhense a quem fui apresentado por meu avô em nossas andanças pelo Centro Histórico de São Luís.

Acometido por um AVC, o poeta fazia parte do bairro da Praia Grande.
Não raro, o encontrar na Casa das Tulhas proseando com a turma ou passando a vista num jornal no estacionamento do Odylo Costa Filho. Um jovem senhor, que carregava consigo a sabedoria dos bambas e uma certa aura de luz. Dono de uma boa malandragem, disfarçada em seu jeito simples e pausado de falar, era querido por todos.

Apesar de sua extensa carreira, seu primeiro disco só foi apresentado na década de 80. Suas canções permaneceram desconhecidas do grande público, até ser revisitado por Rita Ribeiro (o que lhe rendeu o Prêmio Sharp de melhor canção em 97) e Zeca Baleiro na década de 90. Seu Vieira faz parte de uma confraria de músicos a serem reverenciados, tal como o baiano Riachão, revisitado por Cássia Eller em 2001.

Comparada à sua obra, ouvi pouca coisa do poeta. São mais de 400 canções, entre boleros, valsas e sambas despretensiosos, que trazem à tona uma São Luís de antigamente. Mestre Vieira deixa saudades. Grande nome da música maranhense, de uma fase que se tem pouco registro e que precisamos resgatar com urgência.

Um brinde ao Mestre! Um brincante da boa música brasileira.

Com uma dose de gafieiras.com e do blog Pedro Sobrinho

P.S.: Dica da boa
:"O Samba é Bom", primeiro CD solo, gravado ao vivo no auge de seus 89 anos no Teatro Arthur Azevedo em São Luís-MA. Pra quem não conhece vai um aperitivo:

Tem Quem Queira

Composição: Antônio Vieira

Amigo,se andas triste
Vai para uma brincadeira
Se tu não quer
Tem quem queira (2x)
Se é por falta por de dinheiro
Te dou trabalho na feira
Se tu não quer
Tem quem queira (2x)

Se o teu caso é mulher
Tem a Maria Moreira
Se tu não quer
Tem quem queira (2x)
Ela gosta é de ti
E é uma mulata faceira
Se tu não quer
Tem quem queira(2x)

Se te dou esse conselho
É pra tu sair dessa asneira
Se tu não quer
Tem quem queira (2x)
O amor é muito bonito
E ele não tem pasmaceira
Se tu não quer
Tem quem queira (2x)

Portanto não bota fora
A tua alegria brejeira
Se tu não quer
Tem quem queira (2x)
Vai gozar a tua vida
Que ela é breve e passageira
Se tu não quer
Tem quem queira (...)

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Dez minutos


Dez minutos

(...) na janela de um sobrado,
em ilha bárdica,
francesa, lusitana,
o céu revoltou-se

Uma grande nuvem cinza
tomou conta da cidade.
O vento frio toca o meu rosto,
me vejo a viajar!

Pelas janelas de minha vida
vejo a igreja iluminada.
Única é a vista,
meu obscuro olhar!

Não vejo a ponte que interliga
só as luzes os faróis
nas ruas as pessoas se escondem
abrigam-se como podem

A vontade de entregar-me
à água fria é tamanha
Enfrentar o oceano! Quem diria...
Não posso, não há quem ouse.

Aprisionaram meu corpo
livre não imaginam minha alma,
a navegar por mares infinitos
gozando meu momento pródigo!

Pena que minha ilusão
não passou de dez minutos
nada mais que dez minutos
saciei meu desejo tempo

As luzes logo se esquece
e a ponte reaparece
os faróis são apagados
a rotina na cidade segue

A vontade de entregar-me
à água fria é tamanha!
Em minha ilha querida
as nuvens, sempre, vão-se!

São Luís-MA, abril de 1999

quinta-feira, 26 de março de 2009

A invenção do amor


Ah! Os tempos de UFMA... Em 2001 encontrei esse camarada escondido na Biblioteca Central, (sim, apesar de parecer um grande sebo com obras pouco atrativas, logradouro oficial de fungos e traças cult, encontrei esta preciosidades por lá.) O garimpo sempre vale à pena, achei o poeta Daniel Felipe (1925 - 1964). Nascido em Cabo Verde, o também jornalista teve participação ativa contra a ditadura de Salazar e por diversas vezes foi preso pelo DOPS portuga.

A invenção do amor e outros poemas é um daqueles livros que traz em seus versos flashs daqueles anos pesados em Portugal, mas em sua essência é um tratado sobre o amor. Uma obra que li e reli várias vezes, no afã de me arriscar nesse tema. A todos que me dão oportunidade de bater um papo sobre poesia apresento o camarada Daniel Felipe. Sem dúvida alguma, ( o poeta por vezes esquecido) um dos maiores nomes da poesia portuguesa.

Se estiverem só de passagem na bodega tomem só uma dose. Leiam o grifo, minha parte preferida. Um brinde à Daniel Felipe!

P.S.: poema extraído de A Matéria do Tempo



A invenção do amor


Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e
detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa
esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração
e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio A descoberta A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
Embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A policia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta
fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique
Antes que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções paras os que auxiliarem os fugitivos

Chamem as tropas aquarteladas na província
convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos
Decrete-se a lei marcial com todas as suas consequências
O perigo justifica-o
Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade
É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja demasiado tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas

Fechem as escolas
Sobretudo protejam as crianças da contaminação
Uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste
Inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo
Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros. É absoIutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que se fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade

Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio
das normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas

Procurem os guardas dos antigos universos concentracionários
precisamos da sua experiência onde quer que se escondam
ao temor do castigo

Que todos estejam a postos
Vigilância é a palavra de ordem
Atenção ao homem e à mulher de que se fala nos cartazes
À mais ligeira dúvida não hesitem denunciem
Telefonem à polícia ao comissariado ao Governo Civil
não precisam de dar o nome e a morada
e garante-se que nenhuma perseguição será movida
nos casos em que a denúncia venha a verificar-se falsa

Organizem em cada bairro em cada rua em cada prédio
comissões de vigilância. Está em jogo a cidade
o país a civilização do ocidente
esse homem e essa mulher têm de ser presos
mesmo que para isso tenhamos de recorrer às medidas mais drásticas

Por decisão governamental estão suspensas as liberdades individuais
a inviolabilidade do domicílio o habeas corpus o sigilo da correspondência
Em qualquer parte da cidade um homem e uma mulher amam-se ilegalmente
espreitam a rua pelo intervalo das persianas
beijam-se soluçam baixo e enfrentam a hostilidade nocturna
É preciso encontrá-los
É indispensável descobri-los
Escutem cuidadosamente a todas as portas antes de bater
É possível que cantem
Mas defendam-se de entender a sua voz
Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
Lhe lembravam a infância
Campos verdes floridos Água simples correndo A brisa nas montanhas

Foi condenado à morte é evidente
É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo assim desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta

Impõe-se sistematizar as buscas Não vale a pena procurá-los
nos campos de futebol no silêncio das igrejas nas boîtes com orquestra privativa
Não estarão nunca aí
Procurem-nos nas ruas suburbanas onde nada acontece
A identificação é fácil
Onde estiverem estará também pousado sobre a porta
um pássaro desconhecido e admirável
ou florirá na soleira a mancha vegetal de uma flor luminosa
Será então aí
Engatilhem as armas invadam a casa disparem à queima roupa
Um tiro no coração de cada um
Vê-los-ão possivelmente dissolver-se no ar Mas estará completo o esconjuro
e podereis voltar alegremente para junto dos filhos da mulher

Mais ai de vós se sentirdes de súbito o desejo de deixar correr o pranto
Quer dizer que fostes contagiados Que estais também perdidos para nós
É preciso nesse caso ter coragem para desfechar na fronte
o tiro indispensável
Não há outra saída A cidade o exige
Se um homem de repente interromper as pesquisas
e perguntar quem é e o que faz ali de armas na mão
já sabeis o que tendes a fazer Matai-o Amigo irmão que seja
matai-o Mesmo que tenha comido à vossa mesa e crescido a vosso lado
matai-o Talvez que ao enquadrá-lo na mira da espingarda
os seus olhos vos fitem com sobre-humana náusea
e deslizem depois numa tristeza líquida
até ao fim da noite Evitai o apelo a prece derradeira
um só golpe mortal misericordioso basta
para impor o silêncio secreto e inviolável

Procurem a mulher e o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua
No inquérito oficial atónito afirmou
que o homem e a mulher tinham estrelas na fronte
e caminhavam envoltos numa cortina de música
com gestos naturais alheios Crê-se
que a situação vai atingir o climax
e a polícia poderá cumprir o seu dever

Um homem uma mulher um cartaz de denúncia
A voz do locutor definitiva nítida
Manchetes cor de sangue no rosto dos jornais

É PRECISO ENCONTRÁ-LOS ANTES QUE SEJA TARDE

Já não basta o silêncio a espera conivente o medo inexplicado
a vida igual a sempre conversas de negócios
esperanças de emprego contrabando de drogas aluguer de automóveis
Já não basta ficar frente ao copo vazio no café povoado
ou marinheiro em terra a afogar a distância
no corpo sem mistério da prostituta anónima
Algures no labirinto da cidade um homem e uma mulher
amam-se espreitam a rua pelo intervalo das persianas
constroem com urgência um universo do amor
E é preciso encontrá-los E é preciso encontrá-los

Importa perguntar em que rua se escondem
em que lugar oculto permanecem resistem
sonham meses futuros continentes à espera
Em que sombra se apagam em que suave e cúmplice
abrigo fraternal deixam correr o tempo
de sentidos cerrados ao estrépito das armas
Que mãos desconhecidas apertam as suas
no silêncio pressago da cidade inimiga

Onde quer que desfraldem o cântico sereno
rasgam densos limites entre o dia e a noite
E é preciso ir mais longe
destruir para sempre o pecado da infância
erguer muros de prisão em circulos fechados
impor a violência a tirania o ódio

Entretanto das esquinas escorre em letras enormes
a denúncia total do homem e da mulher
que no bar em penumbra numa tarde de chuva
inventaram o amor com carácter de urgência

COMUNICADO GOVERNAMENTAL À IMPRENSA

Por diversas razões sabe-se que não deixaram a cidade
o nosso sistema policial é óptimo estão vigiadas todas as saídas
encerramos o aeroporto patrulhamos os cais
há inspectores disfarçados em todas as gares de caminhos de ferro

É na cidade que é preciso procurá-los
incansavelmente sem desfalecimentos
Uma tarefa para um milhão de habitantes
todos são necessários
todos são necessários
Não sem preocupem com os gastos a Assembleia votou um crédito especial
e o ministro das Finanças
tem já prontas as bases de um novo imposto de Salvação Pública

Depois das seis da tarde é proibido circular
Avisa-se a população de que as forças da ordem
atirarão sem prevenir sobre quem quer que seja
depois daquela hora Esta madrugada por exemplo
uma patrulha da Guarda matou no Cais da Areia
um marinheiro grego que regressava ao seu navio

Quando chegaram junto dele acenou aos soldados
disse qualquer coisa em voz baixa e fechou os olhos e morreu
Tinha trinta anos e uma família à espera numa aldeia do Peloponeso
O cônsul tomou conhecimento da ocorrência e aceitou as desculpas
do Governo pelo engano cometido
Afinal tratava-se apenas de um marinheiro qualquer
Todos compreenderam que não era caso para um protesto diplomático
e depois o homem e a mulher que a policia procura
representam um perigo para nós e para a Grécia
para todos os países do hemisfério ocidental
Valem bem o sacrifício de um marinheiro anónimo
que regressava ao seu navio depois da hora estabelecida
sujo insignificante e porventura bêbado

SEGUE-SE UM PROGRAMA DE MÚSICA DE DANÇA

Divirtam-se atordoem-se mas não esqueçam o homem e a mulher
Escondidos em qualquer parte da cidade
Repete-se é indispensável encontrá-los
Um grupo de cidadãos de relevo ofereceu uma importante recompensa
destinada a quem prestar informações que levem à captura do casal fugitivo
Apela-se para o civismo de todos os habitantes
A questão está posta É preciso resoIvê-la
para que a vida reentre na normalidade habitual
Investigamos nos arquivos Nada consta
Era um homem como qualquer outro
com um emprego de trinta e oito horas semanais
cinema aos sábados à noite
domingos sem programa
e gosto pelos livros de ficção cientifica
Os vizinhos nunca notaram nada de especial
vinha cedo para casa
não tinha televisão,
deitava-se sobre a cama logo após o jantar
e adormecia sem esforço

Não voltou ao emprego o quarto está fechado
deixou em meio as «Crónicas marcianas»
perdeu-se precipitadamente no labirinto da cidade
à saída do hotel numa tarde de chuva
O pouco que se sabe da mulher autoriza-nos a crer
que se trata de uma rapariga até aqui vulgar
Nenhum sinal característico nenhum hábito digno de nota
Gostava de gatos dizem Mas mesmo isso não é certo
Trabalhava numa fábrica de têxteis como secretária da gerência
era bem paga e tinha semana inglesa
passava as férias na Costa da Caparica.

Ninguém lhe conhecia uma aventura
Em quatro anos de emprego só faltou uma vez
quando o pai sofreu um colapso cardíaco
Não pedia empréstimos na Caixa Usava saia e blusa
e um impermeável vermelho no dia em que desapareceu

Esperam por ela em casa: duas cartas de amigas
o último número de uma revista de modas
a boneca espanhola que lhe deram aos sete anos
Ficou provado que não se conheciam
Encontraram-se ocasionalmente num bar de hotel numa tarde de chuva
sorriram inventaram o amor com carácter de urgência
mergulharam cantando no coração da cidade

Importa descobri-los onde quer que se escondam
antes que seja demasiado tarde
e o amor como um rio inunde as alamedas
praças becos calçadas quebrando nas esquinas

Já não podem escapar Foi tudo calculado
com rigores matemáticos Estabeleceu-se o cerco
A policia e o exército estão a postos Prevê-se
para breve a captura do casal fugitivo
(Mas um grito de esperança inconsequente vem
do fundo da noite envolver a cidade
au bout du chagrin une fenêtre ouverte
une fenêtre eclairée)

Daniel Filipe, poeta caboverdiano (1925-1964)

terça-feira, 24 de março de 2009

Berggasse, 19

Berggasse, 19

Mais perto do que imaginas existe um espaço a conquistar
Todos os astros estão lá... Órgãos e vísceras plugados
Homem-mágica, fascinante desconhecido!

Persigo um ideal de paz
Armas brancas nas caravanas inanimadas
O texto dos anjos emblemáticos
O signo dos monges capados
Bruxaria sacerdotal, signos e essências
Talvez, rituais profanos.

- (...) babei sobre Jung,
dormindo com a luz refletida em meus bonecos de cera...

Herdeiro das coisas alheias,
Consagrado por tola vida.
Montado num pégaso anil do inconsciente coletivo.

Enigmático piscar visionário
Engenhoso punho ilógico
A percorrer veias do devaneio,
(meus impróprios segredos)

- (...) babei sobre Jung,
dormindo com a luz refletida nos meus bonecos de cera...

Há poço no vazio do meu ser
Vez em quando mergulho nele.
Existe um lago limítrofe - no que
Penso, leio e escrevo.
Sou ilha ideológica dos acidentes geográficos de minha lenda

As setas que sigo não apontam para dentro.
- Psiu!!! Tio Freud acordou.

Slz, 1999

quinta-feira, 12 de março de 2009

Slumdog Millionaire


Slumdog Millionaire

Hoje ao acessar o Yahoo, li uma notícia que sem dúvida acrescentará muito aos dias que seguem. "Bill Gates volta a ser o mais rico do mundo". E daí? Me perguntei sem o menor interesse de percorrer a lista de nomes. Noutro link escaneio comentários sobre o filme Quem quer ser um milionário? Respondi prontamente: não! Não persigo tanta grana. Entre a meia dúzia de perguntas feitas na película (é... o roteiro nos brinda com isso) chutei todas, mas acertei a que carrega o filme nas costas.

Sem dúvida a direção do inglês Anthony Dod Mantle é primorosa. Apesar de não assumir publicamente é visível a influência de Fernando Meireles em seu trabalho. As comparações são inevitáveis. Locado nos becos de Mumbain, o filme não poupou nem mesmo a galinha ciscadora de esgoto e o enquadramento ligeiro dos vira-latas igualmente retratados nas vielas de Cidade de Deus.

O filme traz o jovem Jamal Malik, que para chamar a atenção do amor perdido, participa de um programa de perguntas e respostas transmitido em rede nacional. O similar do extinto Show do Milhão do SBT, com um Sílvio Santos indiano impagável. A história revela que as lembranças de Malik estão diretamente ligadas as perguntas feitas no programa. Coincidência? Um show de roteiro e edição que fazem vibrar. A trilha sonora é um caso à parte. Algo que os nossos ouvidos Ocidentais não estão acostumados. A Índia em todas suas cores e sons numa obra prima que contraponta risos e o bom drama.

Há poucos caminhos para se chegar aos 40 bilhões de dólares de Gates ou aos 20 milhões de rúpias de Malik. Em tempos de crise econômica e a febre Obama esfriando Quem quer ser um milionário é um prato cheio para a América carente de heróis. Não menos belo, o sonho americano parece não ter acabado. Definitivamente as janelas da Microsoft e as portas dos The Doors levam a mais do que a mera percepção.

terça-feira, 10 de março de 2009

Prelúdio para um bom ano


Prelúdio para um bom ano


Às vezes, maneiras inusitadas de enxergarmos a vida, se confundem com a maneira ideal de a fitarmos. Falo isso, como se a pessoa que fui ontem, pudesse colocar em mim algo de renovada esperança aos dias que se seguem. Acordei de um sonho. Entre mortos e feridos restou-me aos ouvidos a eloqüente indagação: quer que eu te chame de quê? Menino alegre de enorme pança?...

Trilhar caminhos antes percorridos me deram a impressão de estar terminantemente empenhado em saudar as sugestões dos deuses do acaso. Sua presença de enorme inspiração me seduziram desde o primeiro instante que a vi. Seu olhar fazia parte de uma seleta dúzia de olhares que se seguiriam à minha aprovação.

Parei em suas pernas que mesmo em sua saia rodada denunciavam a postura de mulher de simpatia astuta. Sua delgada cintura e sua delicada voz ao pronunciar meu nome selavam aquele encontro. Começo de muitos dons.

Um abraço apertado... Carícias de cumplicidade brejeira não mais passavam despercebidas. Seu olhar em direção ao meu entorpecia meus sentidos. Sua etiqueta à mesa me parecia familiar. Um convite. Luzes apagadas e uma projeção na tela. Dois corpos respeitosamente postos ao embate. Mas quem poderia resistir? Envolto a recomendações dei-lhe o primeiro beijo. Sua boca molhada parecia saber o que procurava.

Como se tivéssemos sido tocados por uma óbvia e ao mesmo tempo inesperada síndrome passional, nos demos as mãos e namoramos a luz do luar. Sentados à beira do caminho de incertezas e ao aconchego da novidade. Naquele momento desliguei todo pé atrás – e que olhar pra trás agora é só seis horas – minha desconfiança era estágio 2 numa escala de 0 a 5.

Era ela... Ah! Se era!... Sem dúvidas prelúdio para um bom ano. O inédito. O novo à minha porta como se tivesse sido caprichosamente entregue pelas mãos divinas do acaso. Coincidências falham... Se tiver escrito seu nome é simplesmente súbita Júlia ou qualquer resposta de vestibular.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Muitas Esquinas


Muitas Esquinas

Todos os dias, ela ensaia dizer o que guarda em segredo.
Há muito, em pensamentos reprime desejos...
Um bilhete na agenda. Nunca! Mais um dia no ano
Enquanto fuma um cigarro flerta o teto do cômodo.
Acaricia as pernas com seu olhar distante
Se esconde dos carros, janelas e flores
Recorda pequenices, beijos e dramas
De qualquer pessoa que pronuncie seu nome.
Sua rotina distrai, já não deforma as linhas das mãos
O amor se desfaz em quebradiços sonhos
No coração habita cidades instantes
Esconderijos frágeis de quem perde o sono.