segunda-feira, 20 de abril de 2009

Voulez-Vous


Voulez-Vous


Estava morto. Mas recebeu a missão de fazer bem às mulheres. Como um anjo ou coisa parecida saía a comer pelas beiradas. Caminhava por praias. Céu cor de rosa, mar revolto sangue. Cavernas e grutas fétidas. Era um inferno astral qualquer.

Encontrava gente de todas as estirpes em seus sonhos. Jogava tarô e escondia os segredos dos desavisados. Entendia os sinais. É... Entendia os sinais e suas inferências. Falava com gente estranha, que dizia se fazer pouca coisa boa na Terra. Cansado de tudo chutou o balde. Partiu sem data para voltar e o compromisso de voltar. Voltou.

Pensava alto: - quem sabe a terra, o fogo, o ar e a água façam um mix e revelem a 66ª profecia. Quem sabe as respostas não pergunta ao vento. Essas picaretagens que só se revelam entre quatro paredes ou ao encontro de algo realmente nobre. Resignificar, desconstruir, moldar... Amassar a cara com o travesseiro e crer que as suas miniangústias são penitências maiores que os 12 trabalhos de Hércules.

Saudava o amanhã e suas possibilidades inerentes com a displicência de quem come um rolinho primavera em um fast food chinês. Fazia relatos do paraíso. Um negócio organizado com frutas maduras no ponto de serem exportadas. Por que não comê-las agora? Por que se estudar minuciosamente se todo dia tem prova?

Parou o avião na palma da mão direita. Um punhado de espelhos o trouxeram ao encontro. Borboletas gigantes, uma em cada perna o levaram para o passeio. Na sombra de uma árvore morreu com uma cerveja na mão, um crachá no pescoço e 2 tostões no bolso para os pães.

Os seus sonhos eram notícias extraídas de revistas de bordo, letras do ABBA na radio Pop, tudo para entreter passageiros. Espaçonaves que navegam entre céus, estrelas e seres.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Antonio Vieira: o último bamba maranhense

Antônio (Luz) Vieira

Com muita tristeza, soube hoje pela manhã, do falecimento de seu Antônio Viera (1920-2009). Cantor maranhense a quem fui apresentado por meu avô em nossas andanças pelo Centro Histórico de São Luís.

Acometido por um AVC, o poeta fazia parte do bairro da Praia Grande.
Não raro, o encontrar na Casa das Tulhas proseando com a turma ou passando a vista num jornal no estacionamento do Odylo Costa Filho. Um jovem senhor, que carregava consigo a sabedoria dos bambas e uma certa aura de luz. Dono de uma boa malandragem, disfarçada em seu jeito simples e pausado de falar, era querido por todos.

Apesar de sua extensa carreira, seu primeiro disco só foi apresentado na década de 80. Suas canções permaneceram desconhecidas do grande público, até ser revisitado por Rita Ribeiro (o que lhe rendeu o Prêmio Sharp de melhor canção em 97) e Zeca Baleiro na década de 90. Seu Vieira faz parte de uma confraria de músicos a serem reverenciados, tal como o baiano Riachão, revisitado por Cássia Eller em 2001.

Comparada à sua obra, ouvi pouca coisa do poeta. São mais de 400 canções, entre boleros, valsas e sambas despretensiosos, que trazem à tona uma São Luís de antigamente. Mestre Vieira deixa saudades. Grande nome da música maranhense, de uma fase que se tem pouco registro e que precisamos resgatar com urgência.

Um brinde ao Mestre! Um brincante da boa música brasileira.

Com uma dose de gafieiras.com e do blog Pedro Sobrinho

P.S.: Dica da boa
:"O Samba é Bom", primeiro CD solo, gravado ao vivo no auge de seus 89 anos no Teatro Arthur Azevedo em São Luís-MA. Pra quem não conhece vai um aperitivo:

Tem Quem Queira

Composição: Antônio Vieira

Amigo,se andas triste
Vai para uma brincadeira
Se tu não quer
Tem quem queira (2x)
Se é por falta por de dinheiro
Te dou trabalho na feira
Se tu não quer
Tem quem queira (2x)

Se o teu caso é mulher
Tem a Maria Moreira
Se tu não quer
Tem quem queira (2x)
Ela gosta é de ti
E é uma mulata faceira
Se tu não quer
Tem quem queira(2x)

Se te dou esse conselho
É pra tu sair dessa asneira
Se tu não quer
Tem quem queira (2x)
O amor é muito bonito
E ele não tem pasmaceira
Se tu não quer
Tem quem queira (2x)

Portanto não bota fora
A tua alegria brejeira
Se tu não quer
Tem quem queira (2x)
Vai gozar a tua vida
Que ela é breve e passageira
Se tu não quer
Tem quem queira (...)

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Dez minutos


Dez minutos

(...) na janela de um sobrado,
em ilha bárdica,
francesa, lusitana,
o céu revoltou-se

Uma grande nuvem cinza
tomou conta da cidade.
O vento frio toca o meu rosto,
me vejo a viajar!

Pelas janelas de minha vida
vejo a igreja iluminada.
Única é a vista,
meu obscuro olhar!

Não vejo a ponte que interliga
só as luzes os faróis
nas ruas as pessoas se escondem
abrigam-se como podem

A vontade de entregar-me
à água fria é tamanha
Enfrentar o oceano! Quem diria...
Não posso, não há quem ouse.

Aprisionaram meu corpo
livre não imaginam minha alma,
a navegar por mares infinitos
gozando meu momento pródigo!

Pena que minha ilusão
não passou de dez minutos
nada mais que dez minutos
saciei meu desejo tempo

As luzes logo se esquece
e a ponte reaparece
os faróis são apagados
a rotina na cidade segue

A vontade de entregar-me
à água fria é tamanha!
Em minha ilha querida
as nuvens, sempre, vão-se!

São Luís-MA, abril de 1999