sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A mulher que passa


A vista estava ruim, mas insistia com aquele hábito. Dizia gostar de ler a Bíblia como experiência meramente literária. Suas parábolas e mitos o faziam crer em um mundo melhor. Insistia em ir à missa aos sábados. Na estante do quarto, Kierkegaard piscava com um olhar discreto e desinteressado. Às 4 da manhã, entre uma dose e outra, as paredes compartilhavam sua sede de vontade. Tinha desejo de gritar, encontrar um fio de esperança no mundo, mas revelar suas angústias daquela forma, soava imprudente demais.

Todos os dias contemplava a rua e o irmão sol. A virgindade natural de cada novo dia. A mulher, que de manhã passava em seu caminhar apressado, tornava o banho mais agradável. Era feliz, mas estava envelhecido por dentro. Aos 37 anos vivia a ditadura da conformidade em que o mundo parecia estar metido. Passar em um concurso público, comprar uma casa, casar, ter filhos. Mas não resistia viver o caos e a liberdade de desafiar o que lhe impunham.


O trânsito incomodava mais que a sua gastrite. Já preferia ir de ônibus para o trabalho. Em um dia comum e de pouca paciência com buzinas,  encontrou a mulher que havia acostumado-se a homenagear durante o banho. Cabisbaixa, melancólica, soluçava baixinho em frente a passarela.

Teria brigado com namorado? Um ente querido falecido? Qual seria o seu nome? A cena comovia, mas não teve coragem de abordá-la. A mulher que a essa altura chorava copiosamente é a mesma que todos os dias tinha uma luz diferente e olhar sugenere de donzela. Tomar banho pela manhã não teria mais o mesmo gosto e a mesma cor.

Allyson Veras