sábado, 27 de fevereiro de 2010

A mulher que passa - Parte 2



Entre uma cerveja e outra acariciavam-se e entendiam-se fortuitamente em seu ninho de amor. Planejavam viajar em breve. Pegar a estrada novamente, conversar sobre amenidades. Um verdadeiro estado de espírito que há muito tempo não pairava sobre a vida do jovem casal. Um relacionamento movido por contínuas discussões. Motivadas por razões que não sabiam mais explicar.

No entanto, insistiam. Queriam respostas e não sabiam onde buscá-las. Diálogo? Essa e outras palavras também não faziam mais parte de seu dicionário amoroso. Ela estava cansada com ele, com a sua mania de colocar o trabalho acima de tudo. Ele sem esperanças com a paralisia emocional da noiva.

Não resistiu. Pediu que fosse embora. - Você está me expulsando? Recolheu as suas coisas e as jogou numa sacola do Carrefour. Sem cerimônias, a colocou para fora. Esmurrou a porta muitas vezes e o xingou sem a polidez do primeiro encontro. Desceu o elevador em lágrimas.

Do outro lado, ele não entendia o acontecido, o seu ato impulsivo e desastrado. Naquele instante, uma chuva desabou sobre o bairro. Correu para fechar as janelas. Por entre as frestas das persianas, um sorriso pousou em seus lábios. Esperou vê-la, ter certeza de que iria mesmo embora.

Ela pediu um sinal dos deuses que explicasse tamanha injustiça. Um futuro incerto os esperavam. - Nem fudendo! Não entendia o porquê da expressão martelar em seus miolos. Seguiu apressada em direção ao carro estacionado em frente ao prédio.

Da janela também a avistou em risos. De braços abertos a contemplar a chuva que parecia lavar a sua alma. Estava certo de que a tinha colocado não só para fora de casa, mas para fora de sua vida. A priori, saudavam a chuva e o cheiro de terra molhada como o sinal que intimamente buscavam.