sábado, 4 de dezembro de 2010

Perfil: Gentileza

  (...) a vida é uma eterna garotinha que ensaia os primeiros passos. 


"Como vai a nossa menina?" Solene, encaixa a saudação. A todos que encontra formula a mini-pergunta, com ar curioso. Apesar da pouca erudição, impressiona o seu esmero com as palavras. É o que se apressam dizer: um homem sábio. Tenor no coral da igrejinha, o chamam Gentileza por suas palavras amigas e seu jeito prestativo, mas não é dado a fazer inscrições pelas ruas da cidade, como o famoso homônimo do Rio.

Para ele, a vida é uma eterna garotinha que ensaia os primeiros passos. "Como vai a nossa menina?" Como tá a vida? Deu para entender a saudação, agora? "Tudo está por vir, sabemos pouco do infinito e não sabemos esconder." Filosofa, horas a fio, na roda de aposentados. "(...) a vida é uma dádiva, presente que nos foi dado sem nada em troca. Dom, sopro, luz.

Nessa passagem, nascemos e morremos crianças." Em suas palavras, envelhecer significa torna-nos crianças outra vez." Nascer e morrer... Mas viver criança. Isso ajudaria a explicar a frase: cabeça fresca, mente jovem, coladas em um quadro na sala de estar. Calma, vai? Relaxa! Eterna infância, dentro de nós.

"Do início ao fim, a garotinha nos acompanha sem pedir muito. Devemos aprender com seus pequenos gestos. Relicário de sutilezas guardadas ao longo da caminhada." A vida é um eterno aprendizado, máxima estampado no mobiliário urbano, na lameira do Mercedão 72, hoje tão etéreas as lameiras dos caminhões! "Meu sonho é voltar para casa, pegar o ônibus e ir para o Nordeste. Aqui faz calor, lá também, mas tem brisa." Cutucou, com um verso de Betânia.

Estava quase certo de que o amor nasce do cuidado que temos por essa mocinha linda, canteiro chamado vida. Nosso viveiro particular. "Ame a vida, ame a ti mesmo. E se ela sorri para você, não tente disfarçar. Como vai nossa menina? Vi o seu riso. Se a vida te sorriu, meu caro é porque estás apto a habitar outro ser." Sobre o casamento anunciava: "Casar-se é o ato de entregar nossa criança ao outro e deixar-se receber a do outro em troca." Uma troca sem parâmetros... Está casado com D. Pureza há 53 anos.

Uma vez perguntado qual a fonte dos bons pensamentos, respondeu: Canto, admiro os pássaros e quem sonha voar com eles, cultivo a esperança e a dúvida. Às vezes, ando de bicicleta. Adverti que seguiria a sua receita.

P.S.: Gentileza, filosofou sobre sua garotinha (vida) no quintal de sua casa. Debaixo de um pé de abacate carregado.