Um dia, um pobre sapo, desses que passam a vida a
contemplar a lagoa como se ela fosse o quintal do mundo e, no entanto, único.
Degustando sua inútil e gasta sabedoria do pântano. Avistou uma jovem muriçoca
em sua perna. Sugando. Plena, como se tivesse descoberto um recanto. Simples,
livre... Sem noções de tempo e espaço. Sem se dar conta do perigo que corria ao
saborear sua displicência, que chegava a ser poética.
O sapo vivia com fome pelos brejos e suas margens
sossegadas. Paquerando sapas e pererecas de espécies exóticas, num incansável
descontentamento. O tédio deu lugar à euforia; de imediato, pensou em devorar
aquela jovial. Aceitando sua condição de sapo, como se obedecesse a um chamado.
Necessitava acariciar o estômago, há muito preconizando, contudo, o insight certeiro.
Travando sua astuta língua. No ar. Em frações de segundos deu-se conta de já
ter ouvido falar daquela pequenina em especial, que um dia encantou o lugar com
sua franqueza. Consciente de si, declarou aos quatro cantos daquele cenário
pacato e de escassa sinceridade que possuía uma única certeza.
Angústia de toda sua existência díptera e entomófila – sendo
esta última característica seu maior segredo. Afligia-se com a cega convicção
que a acompanhava desde os bancos da escola. O desprazer de incomodar com seu zunido
a todos a quem procurava para matar sua sede vital. Sina, destino, acaso, apenas de quem ama a vida. Vez em quando, por sorte, vivendo-a. Convivendo com sua
certeza: um incompreensível barulho melódico. O sapo lembrando-se daquilo que
ouvira falar um dia olhou para dentro de sua alma anfíbia não se reconhecendo.
Inebriado no que restava de sua sensibilidade anura disparou, dono de si:
“Sorrateira e tão sozinha! Não devo matá-la, coooooooitada!
Só possui uma certeza na vida. Há penas... Então a muriçoca, boba, mas pouco
ingênua, apaixonou-se pelo sapo. Pelo seu gesto. Por suas palavras. Cooperação.
O valor das trocas comerciais. Love history à Alencar. Deu-se
conta de que não precisava mais de asas e, no entanto, era alada. A ladra. O
sapo? Bem... aos poucos foi se sentindo roubado. Um convite à poça d’água.
Suculentos mosquitos machos, pernoite pelas bandas de cá. Alcoviteira. Certeza
de poucas vezes. Muriçoca e sapo, saciados. Ela mais...

hehehehehehe
ResponderExcluirManeiríssimo o texto!Mas se essa muriçoca tivesse febre amarela não ia ter nada de "Love Story" nessa parada hehehehehe
Bom saber que tu já se vacinou,parceiro!Dei o toque no meu irmão também e ele também já providenciou a vacina dele.
Abraço,parceiro!